domingo, 1 de maio de 2016

Nu shu - consolo para os dias de arroz e sal - resenha de um livro de Lisa See



Esta é a sinopse do livro Flor de neve e o leque secreto, escrito por Lisa See.

O filme de mesmo nome é também interessante, inclusive por ampliar o assunto e abranger os dias atuais e as mulheres em seu aspecto contemporâneo, em uma história espelhada à principal.
Basicamente a personagem do livro está enredada nos aspectos Obediência cega versus Sinceridade. Esta é a história de todos os que são criados na ideologia do dever acima de tudo. Trava-se a batalha interior entre a verdadeira natureza que clama por expressar-se e a pessoa que supomos que devemos ser, para corresponder ao que a sociedade espera de nós. Os ciclos da vida são inexoráveis, mas não precisam ser impostos, para servir a interesses outros, alguns escusos, outros equivocados.
Existe alternativa, sim, ao papel social imposto, a maneira grega, ateniense, Paideia: descobrir quem somos e desenvolver o melhor de nós. Paideia deriva de paidos Não pule as notas de agradecimento da autora, pois são quase tão interessantes quanto a história, trata-se da pesquisa que ela desenvolveu pra escrever o livro. Vou resumir aqui.
Na China, as mulheres da provincia de Hunan, sudoeste, desenvolveram uma escrita secreta, que permaneceu oculta por mais de mil anos, através da qual elas escreviam poemas, histórias, cartas, e bordavam mensagens me pequenas peças de roupas que enviavam como presentes. Diz a lenda que a escrita nu shu foi criada por Yuxiu, linda moça letrada, filha do fazendeiro Hu, da aldeia de Jintian. O imperador Song Zhezong, ouvindo falar de sua beleza, levou-a para seu palácio, onde ela foi menosprezada pelas damas da corte e abandonada assim que o imperador cansou-se de sua beleza. Essa foi a maneira encontrada pela moça para manter contato com sua família.
Por razões metafísicas e práticas, grande parte dos escritos em nu shu foram queimados. A partir do século vinte, desaparecendo a necessidade de utilizar esta linguagem, ela ficou praticamente extinta.
Há, atualmente, um museu de nu shu e uma escola de nu shu em Puwei.
O esquema de rimas tradicionais utiliza o ritmo de rimas pentassílabo ou heptassílabo. Também na China, algumas meninas especiais podiam unir-se em alianças por toda a vida, alianças conhecidas como velhas iguais ou como união laotong. Elas deveriam ter certos traços em comum, por exemplo, nasciam no mesmo dia e ano, e mais outros seis atributos.
Nu shu é a única escrita conhecida que foi utilizada somente por mulheres.
Diferente dos ideogramas tracidionais, utilizava fonemas (mulher é sempre mais esperta, mesmo) Os pés amarrados eram chamados lírios dourados e dizia-se que eram uma preparação para as dores do parto (???) e comprovavam a capacidade da mulher de ser disciplinada. (E a coitada tinha outra opção?) Supõe-se que uma em cada dez meninas morriam no processo mas ninguém se importava porque meninas eram criaturas sem valor.
Há muitas coisas interessantes no livro, a par da linda história imaginada pela autora.

Por exemplo, a maneira poética de dividir o ciclo da vida das mulheres:
dias de filha
dias de cabelo preso (noivas)
dias de arroz e sal
dias de sentar calmamente

O ideograma chinês para amor materno, tengai, é formado por dois sinais: um siginfica amor e outro, dor.

Muito mais o leitor atento encontrará no livro, que o convidará a refletir sobre a amizade, a lealdade, as difíceis escolhas que a vida impõe nos momentos de crise.


Viajando pelas estátuas ao redor do mundo - artigo cultural





O mais charmoso cemitério da Europa, um lugar realmente romântico, li no meu guia turístico. Li e reli, surpresa. Afinal, é um cemitério, não? Romântico? Charmoso?



Bem, eu tinha de conferir, e assim, lá fui conhecer o Cemitério Laeken, em Bruxelas , onde descobri uma cópia do "Pensador" e fiquei sabendo que Rodin fez vinte cópias da mesma, uma das quais está lá, no Laeken, onde o ponto forte são as estátuas colocadas ao lado dos túmulos ou espalhadas pelos caminhos entre os mesmos. Algumas são realmente tocantes, como as criancinhas pequenas desamparadas, irmãozinhos de mãos dadas, o marido desolado, a moça prostrada sobre o túmulo do amado.
A partir daí passei a prestar mais atenção nas estátuas em minhas andanças pelo mundo , não nas históricas, convencionais, marcos de descobrimento ou homenagens a pessoas ilustres em poses solenes. Não me refiro a estas. Há outra sorte de estátuas.
As artísticas, em que escultores sensíveis retrataram momentos do cotidiano, o soldado que parte, a família que se despede, o migrante que chega, a ave que voa. Como o rapaz que parte, retratado pela desolação do casal de amantes no parque Van Dusen, em Vancouver, Canadá, obra do artista George Lundeen.





Karol Badyna é o escultor dessa estátua de Chopin, exposta no Jardim Botânico de Singapura. Tive de brincar com ela!
Johnson Seward nos contempla com duas gostosas brincadeiras em suas criações. Uma está no Queen Elizabeth Park, Vancouver, e já teve uma de suas pessoinhas roubadas por algum maluco, mas felizmente foi encontrada e levada de volta ao grupo. Claro que a gente não resiste a misturar-se em sua "Sessão de foto"



A outra estátua de autoria dele que me divertiu está à entrada do Stanley Park, Vancouver, e se chama "A busca"
Estava eu alugando minha bicicleta quando me deparo com ela e resolvo tirar uma foto a seu lado na volta do passeio. Devolvida a magrela, duas horas depois, corro ao banco e encontro lá, para meu desencanto, uma senhora sentada bem ao lado da estátua. Aproximei-me disposta a esperar que ela se fosse, e fui recepcionada com um sorriso e uma história:
- Coitada! Você sabe, há anos que ela está aí, a procurar, a procurar, e nunca encontra, sabe-se lá o que, não é mesmo? Talvez uma carta? Ou um batom? Eu bem que tenho ajudar, toda vez que venho aqui fico conversando com ela, coitadinha. Tenho pena, ela é tão solitária, e não irá para casa antes de encontrar, sabe-se lá o quê.
Quinze minutos de conversa semelhante e eu desisti. Não tive de coragem de pedir que a senhorinha se levantasse e me permitisse uma foto ao lado da estátua, pois talvez ela nem soubesse que se tratasse de uma estátua! Persisti, voltei no dia seguinte e tirei várias fotos.



Povos que cultuam uma estátua famosa fazem com elas brincadeiras, como é o caso do Manneken Pis, na Bélgica, que volta e meia recebe roupinhas engraçadas para ficar sempre atualizado. Visitei-o na época da Copa do Mundo, 2014. Encontrei espalhadas pela cidade várias réplicas divertidas, Olhem só o que fizeram:



Uma categoria especial de estátuas apreciadas pelos amantes da arte são as que retratam os mortos famosos em seus locais e poses preferidos, como é o caso do Pessoa sentado à mesa no Chiado, em Lisboa, em frente ao bar A brasileira; do nosso Drummond sentado em seu banco em Copacabana. Difícil é a gente entrar na fila e conseguir a tão desejada foto com o ídolo disputado pelas câmaras dos turistas!
Esta estátua em Lisboa lembra a tradição da terra:



Algumas campanhas ficam famosas à base de estátuas coloridas, como as vacas que passearam pelo mundo e enfeitaram por um tempo a Avenida Paulista, com objetivos controversos, incitando inclusive uma Cow Paródia em resposta á Cow Parade. Cito também os curiosos rinocerontes que invadiram Sydney , em uma campanha para defender os animais ameaçados de extinção, promovida pelo Taronga Zoo.

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Aliás, australianos adoram estátuas estranhas, que me convenceram de que os ingleses imigrantes eram pessoas profundamente criativas. Em Adelaide, encontrei esses porcos revirando o lixo.



Em Melbourne, tropecei neste curioso porta níqueis.



Agora, responda-me o leitor se puder: por que motivo está este garotinho plantando bananeira em uma das ruas mais movimentadas de Sydney?



Há sites com listas das estátuas mais divertidas e curiosas, que o leitor paciente pode garimpar pelo Google.

Um poeta e tres esposas - resenha de um livro de Lisa See

sinopse do livro Peônia apaixonada, de Lisa See



Baseado em uma ópera, sobre uma história antiga de fantasmas, o livro atualiza a saga de três esposasem um enredo original e romântico, Há uma referência histórica sobre o massacre de Yangzhou, em 1645, o momento de transição entre as dinastias Ming(chines) e Qing (manchú)
Como consequência da mudança de governo, os intelectuais chineses se retiraram do governo e se voltaram ao 'mundo interior', dedicando-se às artes, escrevendo poemas, pintando, patrocinando artistas em suas terras, afastando do governo para não auxiliarem a prosperidade dos invasores. Para a personagem do livro, isso siginificou a presença do pai em sua educação: ele a sentava no colo e lia os clássicos para ela; desta forma, ao contrário da maioria das mulheres, Peônia é instruída, e desenvolve sua inteligência e sensibilidade.
A mãe da jovem, como ela descobrirá mais tarde, no decorrer da história, foi uma das muitas mulheres da elite que, 'na desordem social que se seguiu ao Cataclisma, quando a dinastia Ming caiu e os manchús se apoderaram do poder, aproveitaram o momento para deixar suas casas e viajar pelos rios navegáveis em botes aprazíveis, escrevendo sobre o que viram e publicando suas observações.
Nessa época, muitas mulheres do delta de Yangzi deram uma nova interpretação às Quatro Virtudes. No entanto, ao criar as filha, a mãe de Peônia severamente a alertava para o significado e intenção originais (virtude, compostura, modéstia e trabalho)'

As Quatro Virtudes :
Chin - sabedoria
Yung - coragem
Jen — benevolência
Li - padrão de conduta exemplar

O livro é interessante sobre diversos aspectos: aborda a anorexia nervosa sob o ponto de vista de distúrbio amoroso; mergulha no aposento das mulheres, encara as consequências funestas da guerra, analisa os costumes antigos, apresentando-nos tanto a sabedoria quanto as superstições desse povo antigo; e disseca o relacionamento amoroso, transcendendo o desejo indo ao âmago do sentimento.

Leitura cativante e encantadora.

Os vestígios do dia - resenha do livro Os resquícios do dia, de Kazuo Hishiguro

Sinopse do livro de Kazuo Ishiguro — The remains of the day

Tema de um filme igualmente brilhante , estrelado por Anthony Hopkins e Emma Thopson.

Introspectivo. Denso. O primeiro capítulo é difícil de ler, há muitos nomes nele,depois a depois a leitura deslancha. O estilo do autor é agradável.
Um mordomo, com seu código de honra, seu senso de lealdade, de dignidade, é algo que só pôde existir na Inglaterra.
Mr. Stevens, filho de mordomo, é obcecado pela questão: o que é ser um grande mordomo? O que é esta grandeza, de que se fala na Inglaterra, até mesmo no nome do país, a 'Grande' Bretanha? Dedicando a sua vida ao cumprimento do dever, Mr. Stevens certamente deixou passar oportunidades de amor, amizade, e mesmo, até, de tomar partido em assuntos morais de grande impacto.
Pode-se perguntar se o personagem carece de inteligência ou é apenas vítima de intensa programação, diria até adestramento, para não ver, não ouvir e não falar. Sua humanidade beira os limites da robótica.
O pano de fundo é a segunda guerra mundial.
O contraponto ao protagonista é a governanta Sally Kenton, emotiva, eficiente e inexplicavelmente, apaixonada por Mr. Stevens.Como este não lhe retribui o afeto, ela deixa o emprego e casa-se com outro homem.
Já velho, o mordomo passa alguns dias passeando pelo país e rememorando os grandes momentos de sua vida: a morte do pai, o convívio com Miss Kenton, que o admira, ainda, e ao encontro da qual está indo nessa viagem; ocasiões em que 'grandes eventos mundiais'foram afetados pelas pessoas que se reuniram em Darlington House, a mansão onde trabalha - porém Mr. Stevens permaneceu o perfeito mordomo: surdo, mudo, calado.
Ao fim da viagem, um desconhecido lhe diz, ao por do sol: (e ele, curiosamente, afirma, que, claramente, o sentido da frase é metafórico!):

`The afternoon is the lightineng part of the day'
(a tarde é a parte mais brilhabte do dia)

Bem, Mr. Stevens, o que lhe restou ao fim de seu 'metafórico' dia?
Terá o senhor o mesmo destino inglório, a mesma morte solitária de seu pai?
(curiosamente, ele nem cita a mãe)
Ao lado da ex governanta, em pé na estação de trem, o mordomo parece enfim compreender...deixo ao leitor, como o faz Ishiguro, as conclusões.

A vida real é mais fascinante do que a ficção - resenha do livro A bibliotecária de Auzchwitz

Sinopse do livro A bibliotecária de Asuchwitz - Antonio G. Iturbe

A vitória é dos que persistem na boa luta.
Há muitos fatos interessantes neste livro, como as pessoas livro — pessoas que memorizavam um livro e todos os dias contavam e recontavam a mesma história, para que o texto não se perdesse. E o recurso ousado utilizado por um alemão para retirar um judeu do campo, levando em sua mochila um uniforme extra e saindo os dois uniformizados, o judeu junto com ele. em seu horário normal de deixar o posto, bem à vista dos sentinelas habituais, que nem deram pelo estratagema.
Por que as histórias de campos de concentração nos fascinam tanto? Eu, pelo menos, fico grudada ao livro e não consigo largar, por piores que sejam as situações ali descritas, torcendo pelos personagens do bem.
E me dou conta de que, para mim, pelo menos para mim, os campos de concentração são uma metáfora de minha realidade, na qual estou presa contra minha escolha. E os nazistas são todas as pessoas más que destroem este planeta que tem tudo para ser um paraíso, os corruptos, os gananciosos, os criminosos, os maus profissionais e políticos corruptos, que se apropriam do uqe deveria ser o bem comum. Se acreditarmos na mídia, parece que os maus-caracteres estão com a bola da vez.
Sim, "este é um mundo horrível", como disse Saramago, e é consolador ler um livro histórico e verificar que a vitória está com os que resistem, com os que conseguem rir apesar de todo absurdo, focar na beleza apesar de toda crueldade, e recusar-se a odiar, pois, como diz um dos personagens do livro, o professor Morgenstern, se nos permitirmos odiar, "eles" terão vencido a guerra, ao nos transformar em um ser moralmente deformado. Manter a sanidade mental e com ela a alegria, em meio ao horror, eis o desafio.
Baseado na vida real de Edita Polachova e seu incrível mentor Fredy Hirsch, que acreditava que alimentar as almas era prioritário, e conseguiu manter o espírito vivo de crianças, jovens e idosos durante anos, em Auschwitz, com o uso de livros vivos (aquelas pessoas de boa memória que decoravam livros), quadros-negros imaginários e uma biblioteca secreta, arriscando a própria vida para organizar uma escola no campo, alimentando a esperança: um dia, quando sairmos daqui, precisamos estar preparados para reconstruir o mundo lá fora.
Atualmente não existe uma guerra tradicional, ela está mascarada: o esmagamento econômico, a hegemonia da mídia, todo um paradigma contra o qual nos defrontamos todos os dias, e que traz, para os mais ecológicos e menos materialistas, a sensação de maldade e sufoco.
Quanta coisa boa acontece e é tão dificilmente alardeada? Quanta tentativa de rebelião ao status quo é cerceada nos bastidores? Os movimentos em prol de justiça e contra corrupção em nosso país são um exemplo recente. (Alguém acredita que não existe censura no Facebook e em outras mídias sociais? Nos e-mails das intranets nas grandes corporações? Manipulação do meio jornalístico?) E um boicote ao trabalho de formiguinha dos milhares de simpatizantes da paz, em grupos de yoga, religiosos, grupos variados de apoio psicológico a todo tipo de problema?
Ao colocar-me no lugar da personagem, percebo que é assim que me sinto: um dia, quando toda essa maluquice que está aí passar, e a vida normal retornar ao planeta — porque esta insanidade destruidora simplesmente terá de parar - precisamos estar preparados para reconstruir a Terra, que o materialismo coloca em risco.
a vida re

A história da migração de um povo em poesia -resenha do livro Encontro com poetas nipo-brasileiros



Tenho em mãos o livro Encontro com poemas nipo-brasileiros. Selecionei alguns poemas que traçam com delicadeza esta transição difícil das ilhas distantes para este inferno tropical. Sensibiliza-me a delicadeza com que aludem a temas delicados. O livro apresenta uma breve história dos rumos das formas artísticas japonesas em solo brasileiro. Os primeiros imigrantes aqui chegaram em 1908.

Haicai - esta forma poética expressa aspectos da natureza e sempre inclui um kigo (uma palavra tema que geralmente é uma flor, ou bicho, ou fenômeno climático) Ao vir ao Brasil o imigrante Nenpuku Sato recebeu de seu mestre uma missão a cumprir:

Cultive a terra e construa um país de haicais. - Kyoshi Takahama
(Hatta utte haikaikoku o hiraku beshi)

Nenpuku compôs seus haiku observando a natureza tropical. Um exemplo:

O brilho
das flores de café
ao nascer da lua.



Cumpriu bem sua missão, pois o Brasil é o país em que mais haicaístas existem, fora do Japão, e onde pessoas de todas as etnias se encantam com os grêmios de haicai, ao contrário do que acontece em outros países cujos povos são menos inclusivos que o nosso.

Tanka - modalidade poética com mais de 1300 anos de história, consistindo de 31 sílabas encadeadas, transmitindo sentimentos pessoais. As pessoas que se reunem para manter essa tradição são verdadeiras chamas guardiãs da cultura ancestral.

Senryû - é um poema satírico que surgiu em meados da Era Edo (século XVII) e utiliza a linguagem moderna para se referir a fatos cotidianos.

Muitos dos poemas, escritos em japonês, perdem a métrica na tradução; no entanto os sentimentos de toda uma comunidade é o aspecto importante desta leitura, e permanece fresco e intato. A literatura japonesa morrerá com seus autores, dos quais restam ainda alguns centenários, porém a nova geração juntamente com os brasileira admiradores dessas formas poéticas levarão adiante essas tradição, agora não mais japonesa, mas aclimatada.

Vamos aos textos garimpados no livro:

Haicais

Rio Ribeira _
canção de colheitas de chá
às suas margens.
Kazue Koyama



Ao som do poema
de Gonçalves Dias
canta o sabiá.
Reiko Akisue



Sabiás gorjeiam_
sensação de aconchego
no país hospitaleiro.
Saoko Kosai



Retornar ao Japão _
no vasto campo seco
sonhos enterrados.
Kazuma Tomishige



No Ano Novo,
telefonema ao Japão.
Felicitações!
Mitsue Ino



Dia do imigrante_
Amor à terra natal
e louvor a este país.
Haruno Nishida



Tanka

Atravessando a rua
com a nora de olhos azuis,
mãos que me tocam
transmitem calor.
Reiko Abe



Passei a gostar mais de futebol do que do
sumô, e assim
fui me integrando no meio dos brasileiros.
Asahiko Fujita



Senryû

Envelheceram os imigrantes
que ainda cantam a terra natal.
Kobayashi Yoshiko



Não se mostra às crianças
a tristeza de fazer das tripas coração.
Suga Tokuji



Ser feliz é decisão de cada um.
A felicidade florescerá onde cultivarmos.
Kazuko Hirokawa



Em 1987 foi fundado em São Paulo o Grêmio Haicai Ipê , sob a liderança de Hidekazu Masuda, carinhosamente chamado Mestre Goga. Em 1996, um catálogo intitulado Natureza - berço do haicai , contendo 1400 kigos brasileiros foi publicado em comemoração ao Centenário da Amizade Brasil-Japão.
Como tantas outras boas contribuições que os japoneses nos trouxeram, sua poesia enriquece nossa visão do mundo. Harmonizemo-nos, pois, com a natureza e com todos os outros povos, nossos irmãos.

Política - da filosofia à neurociência - artigo cultural


"A finalidade da vida política é o melhor dos fins, fazer com que os cidadãos sejam bons e capazes de nobres ações"
Quem afirmou isso? Aristóteles, em Ética a Nicômano
Há fatos curiosos sobre filósofos, estes seres ingênuos e bons, que aparecem de tempos em tempos sobre a Terra.
Confúcio ameaçava ser uma boa influência para o principado de Lu, e o vizinho teve uma brilhante idéia: enviou 80 mulheres jovens de presente ao governante, que passou a dar a elas mais atençao que ao sábio (e que ao governo). Assim, a equanimidade e a justiça passaram a segundo plano...e confúcio, desgostoso, foi passear com seus discípulos procurando em vão quem o escutasse.
Platão enfiou na cabeça a idéia de doutrinar o tirano de Siracusa e convencê-lo a implantar sua sonhada "República". Resultado: acabou preso, e não fosse a intervenção de amigos atenienses que pagaram por seu resgate, dificilmente escaparia de ser assassinado.
Eu tive um ingênuo professor de ética que enveredou pela política e sonhou passar de vereador a prefeito. O bom homem tinha escrúpulos de votar em si mesmo e propos a outro colega vereador, também candidato, que votassem um no outro. O leitor já adivinhou? No resultado - confiável, porque naquelas jurássicas eras a gente escrevia na cédula de papel - o coitado não teve nenhum voto. Zero.
E a família dele? - perguntarão. Sei que ele se divorciou.
Colegas meus, honestos e corajosos, recebiam telefonemas anônimos na calada da noite: "Melhor retirar sua candidatura. Seu filho/sobrinho/neto estudaem tal escola e mora em tal lugar. Entendeu?". Todos entenderam.
Quem conhece informática sabe como é fácil manipular um programa de contagem. Basta inserir uma linha de comando: quando o inimigo X atingir 49% do total, toda contagem subsequente será lida como Y. Não tendo o comprovante em papel, quem vai refutar a tramóia?
Kant afirma que todo homem tem o mesmo propósito na vida: ser feliz. O que ele não esclarece é porque alguns acreditam que para serem felizes devem destruir a felicidade dos outros. Vem em nosso socorro a neurociência: falta ao cérebro desses desgraçados os neurônios espelhos, aquelas preciosas celulazinhas cinzentas responsáveis pelo amor, simpatia e compaixão. Cada uma dessas emoções tem circuitos cerebrais ligeiramente diferentes.
Então, perguntará o leitor, as pessoas que não seguem a regra de ouro, que não têm os tais neurônios espelhos, não são normais? Não! O que elas são? Psicopatas.
Não se assuste o leitor. É fato sabido por todo psiquiatra que a maioria dessa gente não mata, não estupra e não rouba; no máximo inferniza a vida dos colegas do escritório.
A maldade verdadeira se revela em menos de 1% da população. Falo dos loucos por poder, os que não se deterão diante de nada. Menos de 1% de gente gananciosa e sem escrúpulo levaram nosso planetinha azul à beira do colapso. Nós, os normais, somos 99%.
Vamos agir?