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domingo, 1 de maio de 2016

É suave a noite

(esta crônica da nome ao livro de Sonia Regina Rocha Rodrigues)

_Nut, a deusa da noite, estende seu manto negro para proteger o sono dos homens.
_Nut?
_Nut, a deusa da noite, cobre seus filhos com esse magnífico manto estrelado.
E enquanto minha tia falava, as últimas luzes do dia sumiram por trás da serra e escureceu. Era uma noite sem lua. Eu podia ouvir os vagalhões do mar e o farfalhar dos coqueiros soava mais alto. Milhares de sons apareciam com as trevas – sapos, corujas, mariposas em vôo. O mundo trocava as cores por sons. E a orquestração era magnífica.
Pude sentir os cheiros, que, à noite, ficam mais intensos. Lírios, camélias, damas da noite...e eu quase podia provar o mar no sabor salgado da brisa.
Ah! Como eu me sentia segura nos braços amorosos de Nut, que, nas minhas recordações, confunde-se com minha tia.
Por isso eu andava confiantemente pela casa às escuras, se acordasse com sede durante a madrugada. Por isso também era eu que, quando faltava energia, subia as escadas sozinho e ia à despensa buscar velas e fósforos.
_Tia, essa deusa Nut é de que país?
_Egito, meu amor.
_Aquele país das pirâmidos e dos desertos?
_E dos faraós.
_Da Esfinge.
_Das tempestades de areia.
_Dos oásis.
_Dos camelos.
E assim os temores que eu nem chegava a sentir transformavam-se em exóticas maravilhas.
Aprendi a amar a noite, e decifrar em seus cheiros e sons tão bem quanto nas cores e formas do dia.
É por isso que durante as horas mais negras, eu prossigo como quem atravessa uma tempestade de areia no deserto, na certeza de que as tempestades passam, e há sempre um oásis um pouco mais adiante.

resenha do livro Sete Anos, de Fernanda Torres





O livro reúne textos publicados entre 2007 e 2013 nas revistas Veja Rio, Piauí e no jornal Folha de São Paulo. Apenas uma é inédita, a que fala sobre a morte de Fernando Torres.
Fernanda fala do ofício do ator e da arte cênica fazendo um apanhado da história do teatro, cinema e televisão em cujos palcos transitou desde cedo na vida.
Há pontos negativos. Fernanda carece da técnica do escritor profissional e transporta para o papel certos vícios de linguagem cuja origem se compreende quando se lembra de seu sucesso como comediante. O caricato, a superficialidade, a generalização que provocam o riso contaminam sua prosa. Ela abusa dos clichês e mostra sem aprofundar. Lembremos que os textos foram originalmente escritos para colunas de mídia impressa, espaço rígido em seu formato. Imperdoável é a falta de revisão da Companhia das letras que deixou escapar mistura de tratamentos, como nessa frase da página 123: "O humorista fará piada com sua desgraça, o escritor te roubará as histórias e o jornalista usará sua informação."
O texto Buquê nada acrescenta ao leitor e destoa do conjunto. Fala da histeria feminina e de sexo oral em uma conversa à mesa que pretende ser engraçada, porém, "entre o chocolate e a carícia íntima", "esqueçam os aspargos" e a crônica.
Perdoemos estes deslizes da escritora Fernanda, já que a atriz nos presenteia com um retrato precioso dos bastidores da arte e se dispõe a "falar, sem deixar de ser pessoal, sobre coisas de interesse comum."
O texto de abertura é Kuarup, no qual ela nos detalha à sua maneira engraçada os apuros da equipe de filmagem, isolada no Parque Nacional do Xingu, alojada em barracas baixas que obrigava as pessoas a viverem acocoradas, observadas por famílias indígenas, tendo o material de cena que pernoitara ao relento devorado por formigas. A autora confessa ter perdido seus "delírios de moça fina" e desenvolvido um certo "ceticismo em relação à vida selvagem".
Comparando diretores, roteiristas, passeando entre grupos e tendências, Fernanda cita a mãe para diferenciar trama e drama. A trama é técnica fria, o sofrimento egoico que o psiquiatra cura. O drama é apanágio dos mestres, é a transcendência da alma, toca fundo o espectador.
Achei curiosa a revelação de Bráulio Mantovani: "quando disseram que meus personagens americanos eram estereotipados, eu não tinha a menor ideia do que fazer para humaniza-los."
Quando o assunto é política, no entanto, Fernanda vacila; usa tantas figuras de linguagem que acaba por dizer coisa nenhuma. Melhor calar, como fez a mãe ao ser convidada para entrar na política, como Ministra da Cultura. No entanto, ela é comentarista política...fica sempre em cima do muro.
No capítulo Os Russos há interessantes considerações sobre o uso da literatura como solução para o ensino da política. A autora justifica: "os personagens debatem, discutem, evita-se a doutrinação sem contexto, permite-se a retrospectiva histórica da reflexão; usa-se a contradição humana como narrador". Ao término, o texto, que mantinha o seriedade do tema, desagua na desastrosa última frase: "a arte é uma baita aliada da educação". Em minha opinião, a palavra baita descontrói o texto.
Minha crônica preferida foi No dorso instável de um tigre, sobre o ofício de ator:
"O deus do teatro é Dionísio, o doido, o catártico, o de vinho, o do êxtase. É preciso livrar-se de Narciso. Os iniciantes vivem por definição em estado de pânico. A angústia em cena é o motor do comediante; controlá-la é a arte do profissional". Segundo Fernanda, teatro é fingimento mútuo. "Eu finjo ser outro e você finge que acredita". A fobia do ator é o medo da cena. Se cavalo e entidade se misturarem no palco, é o colapso, o risco de perder o sentido da profissão. "Que razão há para fingir ser outro?". Há uma linha bem tênue separando personagem, alucinação programada e loucura. "O bom ator não representa, é." O final deste texto é perfeito: "Tudo se primeira fala da primeira cena de Hamlet: Quem está aí?"
O maior elogio que posso fazer ao livro é: Fernanda escreve com a alma. artigo publicado no site


A arte de não ler - Resenha do livro de Schopenhauer (A arte de escrever)

9(


Engana-se quem pensa que os filósofos são sérios, tediosos, enfadonhos. Pelo contrário! Em alguns textos, como este de Schopenhauer, eles são engraçados, bem humorados e usam ironia fina para criticar os costumes.
Schopenhauer constata que em todos os tempos, a maioria das pessoas "lê, sempre, em vez dos melhores, a última novidade". Por isso, diz ele, "é tão importante a arte de não ler"!, constatando que "quem escreve para os tolos sempre encontra um grande público" e que "todo autor se torna um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro".
O filósofo aconselha ao leitor que "é melhor comprar livros de segunda mão do que ler livros de segunda mão". (aqueles livros em que alguém diz sua opinião sobre o que ele acha que o autor quis dizer. Às vezes, até o próprio autor se surpreende... dos achismos do sujeito)
"Na república dos eruditos, cada um procura promover a si próprio para conquistar algum reconhecimento". Schopenhauer diferencia eruditos de pensadores. "Os eruditos são aqueles que leram coisas nos livros, mas os pensadores são aqueles que leram diretamente no livro do mundo".
"Usar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos é sempre sinal inconfundível de mediocridade". Infelizmente, quem grita mais alto consegue seus cinco minutos de fama...
O autor ainda faz alguns comentários com seriedade. A respeito da poesia, por exemplo, afirma que poemas não podem ser traduzidos, apenas recriados. Também comenta que "a lei da simplicidade e da ingenuidade, já que essas qualidades combinam o que há de mais sublime, vale para todas as belas artes".
Todo grande leitor e cada aspirante a escritor aprenderá algo útil nesta obra não tão conhecida deste filósofo, A arte de escrever , e certamente passará algumas horas agradáveis na companhia deste livro interessante, ao qual não se aplica, a meu ver, a utilíssima "arte de não ler". publicado no site Digestivo Cultural em 10/7/2015

Nu shu - consolo para os dias de arroz e sal - resenha de um livro de Lisa See



Esta é a sinopse do livro Flor de neve e o leque secreto, escrito por Lisa See.

O filme de mesmo nome é também interessante, inclusive por ampliar o assunto e abranger os dias atuais e as mulheres em seu aspecto contemporâneo, em uma história espelhada à principal.
Basicamente a personagem do livro está enredada nos aspectos Obediência cega versus Sinceridade. Esta é a história de todos os que são criados na ideologia do dever acima de tudo. Trava-se a batalha interior entre a verdadeira natureza que clama por expressar-se e a pessoa que supomos que devemos ser, para corresponder ao que a sociedade espera de nós. Os ciclos da vida são inexoráveis, mas não precisam ser impostos, para servir a interesses outros, alguns escusos, outros equivocados.
Existe alternativa, sim, ao papel social imposto, a maneira grega, ateniense, Paideia: descobrir quem somos e desenvolver o melhor de nós. Paideia deriva de paidos Não pule as notas de agradecimento da autora, pois são quase tão interessantes quanto a história, trata-se da pesquisa que ela desenvolveu pra escrever o livro. Vou resumir aqui.
Na China, as mulheres da provincia de Hunan, sudoeste, desenvolveram uma escrita secreta, que permaneceu oculta por mais de mil anos, através da qual elas escreviam poemas, histórias, cartas, e bordavam mensagens me pequenas peças de roupas que enviavam como presentes. Diz a lenda que a escrita nu shu foi criada por Yuxiu, linda moça letrada, filha do fazendeiro Hu, da aldeia de Jintian. O imperador Song Zhezong, ouvindo falar de sua beleza, levou-a para seu palácio, onde ela foi menosprezada pelas damas da corte e abandonada assim que o imperador cansou-se de sua beleza. Essa foi a maneira encontrada pela moça para manter contato com sua família.
Por razões metafísicas e práticas, grande parte dos escritos em nu shu foram queimados. A partir do século vinte, desaparecendo a necessidade de utilizar esta linguagem, ela ficou praticamente extinta.
Há, atualmente, um museu de nu shu e uma escola de nu shu em Puwei.
O esquema de rimas tradicionais utiliza o ritmo de rimas pentassílabo ou heptassílabo. Também na China, algumas meninas especiais podiam unir-se em alianças por toda a vida, alianças conhecidas como velhas iguais ou como união laotong. Elas deveriam ter certos traços em comum, por exemplo, nasciam no mesmo dia e ano, e mais outros seis atributos.
Nu shu é a única escrita conhecida que foi utilizada somente por mulheres.
Diferente dos ideogramas tracidionais, utilizava fonemas (mulher é sempre mais esperta, mesmo) Os pés amarrados eram chamados lírios dourados e dizia-se que eram uma preparação para as dores do parto (???) e comprovavam a capacidade da mulher de ser disciplinada. (E a coitada tinha outra opção?) Supõe-se que uma em cada dez meninas morriam no processo mas ninguém se importava porque meninas eram criaturas sem valor.
Há muitas coisas interessantes no livro, a par da linda história imaginada pela autora.

Por exemplo, a maneira poética de dividir o ciclo da vida das mulheres:
dias de filha
dias de cabelo preso (noivas)
dias de arroz e sal
dias de sentar calmamente

O ideograma chinês para amor materno, tengai, é formado por dois sinais: um siginfica amor e outro, dor.

Muito mais o leitor atento encontrará no livro, que o convidará a refletir sobre a amizade, a lealdade, as difíceis escolhas que a vida impõe nos momentos de crise.


Os vestígios do dia - resenha do livro Os resquícios do dia, de Kazuo Hishiguro

Sinopse do livro de Kazuo Ishiguro — The remains of the day

Tema de um filme igualmente brilhante , estrelado por Anthony Hopkins e Emma Thopson.

Introspectivo. Denso. O primeiro capítulo é difícil de ler, há muitos nomes nele,depois a depois a leitura deslancha. O estilo do autor é agradável.
Um mordomo, com seu código de honra, seu senso de lealdade, de dignidade, é algo que só pôde existir na Inglaterra.
Mr. Stevens, filho de mordomo, é obcecado pela questão: o que é ser um grande mordomo? O que é esta grandeza, de que se fala na Inglaterra, até mesmo no nome do país, a 'Grande' Bretanha? Dedicando a sua vida ao cumprimento do dever, Mr. Stevens certamente deixou passar oportunidades de amor, amizade, e mesmo, até, de tomar partido em assuntos morais de grande impacto.
Pode-se perguntar se o personagem carece de inteligência ou é apenas vítima de intensa programação, diria até adestramento, para não ver, não ouvir e não falar. Sua humanidade beira os limites da robótica.
O pano de fundo é a segunda guerra mundial.
O contraponto ao protagonista é a governanta Sally Kenton, emotiva, eficiente e inexplicavelmente, apaixonada por Mr. Stevens.Como este não lhe retribui o afeto, ela deixa o emprego e casa-se com outro homem.
Já velho, o mordomo passa alguns dias passeando pelo país e rememorando os grandes momentos de sua vida: a morte do pai, o convívio com Miss Kenton, que o admira, ainda, e ao encontro da qual está indo nessa viagem; ocasiões em que 'grandes eventos mundiais'foram afetados pelas pessoas que se reuniram em Darlington House, a mansão onde trabalha - porém Mr. Stevens permaneceu o perfeito mordomo: surdo, mudo, calado.
Ao fim da viagem, um desconhecido lhe diz, ao por do sol: (e ele, curiosamente, afirma, que, claramente, o sentido da frase é metafórico!):

`The afternoon is the lightineng part of the day'
(a tarde é a parte mais brilhabte do dia)

Bem, Mr. Stevens, o que lhe restou ao fim de seu 'metafórico' dia?
Terá o senhor o mesmo destino inglório, a mesma morte solitária de seu pai?
(curiosamente, ele nem cita a mãe)
Ao lado da ex governanta, em pé na estação de trem, o mordomo parece enfim compreender...deixo ao leitor, como o faz Ishiguro, as conclusões.

A vida real é mais fascinante do que a ficção - resenha do livro A bibliotecária de Auzchwitz

Sinopse do livro A bibliotecária de Asuchwitz - Antonio G. Iturbe

A vitória é dos que persistem na boa luta.
Há muitos fatos interessantes neste livro, como as pessoas livro — pessoas que memorizavam um livro e todos os dias contavam e recontavam a mesma história, para que o texto não se perdesse. E o recurso ousado utilizado por um alemão para retirar um judeu do campo, levando em sua mochila um uniforme extra e saindo os dois uniformizados, o judeu junto com ele. em seu horário normal de deixar o posto, bem à vista dos sentinelas habituais, que nem deram pelo estratagema.
Por que as histórias de campos de concentração nos fascinam tanto? Eu, pelo menos, fico grudada ao livro e não consigo largar, por piores que sejam as situações ali descritas, torcendo pelos personagens do bem.
E me dou conta de que, para mim, pelo menos para mim, os campos de concentração são uma metáfora de minha realidade, na qual estou presa contra minha escolha. E os nazistas são todas as pessoas más que destroem este planeta que tem tudo para ser um paraíso, os corruptos, os gananciosos, os criminosos, os maus profissionais e políticos corruptos, que se apropriam do uqe deveria ser o bem comum. Se acreditarmos na mídia, parece que os maus-caracteres estão com a bola da vez.
Sim, "este é um mundo horrível", como disse Saramago, e é consolador ler um livro histórico e verificar que a vitória está com os que resistem, com os que conseguem rir apesar de todo absurdo, focar na beleza apesar de toda crueldade, e recusar-se a odiar, pois, como diz um dos personagens do livro, o professor Morgenstern, se nos permitirmos odiar, "eles" terão vencido a guerra, ao nos transformar em um ser moralmente deformado. Manter a sanidade mental e com ela a alegria, em meio ao horror, eis o desafio.
Baseado na vida real de Edita Polachova e seu incrível mentor Fredy Hirsch, que acreditava que alimentar as almas era prioritário, e conseguiu manter o espírito vivo de crianças, jovens e idosos durante anos, em Auschwitz, com o uso de livros vivos (aquelas pessoas de boa memória que decoravam livros), quadros-negros imaginários e uma biblioteca secreta, arriscando a própria vida para organizar uma escola no campo, alimentando a esperança: um dia, quando sairmos daqui, precisamos estar preparados para reconstruir o mundo lá fora.
Atualmente não existe uma guerra tradicional, ela está mascarada: o esmagamento econômico, a hegemonia da mídia, todo um paradigma contra o qual nos defrontamos todos os dias, e que traz, para os mais ecológicos e menos materialistas, a sensação de maldade e sufoco.
Quanta coisa boa acontece e é tão dificilmente alardeada? Quanta tentativa de rebelião ao status quo é cerceada nos bastidores? Os movimentos em prol de justiça e contra corrupção em nosso país são um exemplo recente. (Alguém acredita que não existe censura no Facebook e em outras mídias sociais? Nos e-mails das intranets nas grandes corporações? Manipulação do meio jornalístico?) E um boicote ao trabalho de formiguinha dos milhares de simpatizantes da paz, em grupos de yoga, religiosos, grupos variados de apoio psicológico a todo tipo de problema?
Ao colocar-me no lugar da personagem, percebo que é assim que me sinto: um dia, quando toda essa maluquice que está aí passar, e a vida normal retornar ao planeta — porque esta insanidade destruidora simplesmente terá de parar - precisamos estar preparados para reconstruir a Terra, que o materialismo coloca em risco.
a vida re