domingo, 1 de maio de 2016

Viajando pelas estátuas ao redor do mundo - artigo cultural





O mais charmoso cemitério da Europa, um lugar realmente romântico, li no meu guia turístico. Li e reli, surpresa. Afinal, é um cemitério, não? Romântico? Charmoso?



Bem, eu tinha de conferir, e assim, lá fui conhecer o Cemitério Laeken, em Bruxelas , onde descobri uma cópia do "Pensador" e fiquei sabendo que Rodin fez vinte cópias da mesma, uma das quais está lá, no Laeken, onde o ponto forte são as estátuas colocadas ao lado dos túmulos ou espalhadas pelos caminhos entre os mesmos. Algumas são realmente tocantes, como as criancinhas pequenas desamparadas, irmãozinhos de mãos dadas, o marido desolado, a moça prostrada sobre o túmulo do amado.
A partir daí passei a prestar mais atenção nas estátuas em minhas andanças pelo mundo , não nas históricas, convencionais, marcos de descobrimento ou homenagens a pessoas ilustres em poses solenes. Não me refiro a estas. Há outra sorte de estátuas.
As artísticas, em que escultores sensíveis retrataram momentos do cotidiano, o soldado que parte, a família que se despede, o migrante que chega, a ave que voa. Como o rapaz que parte, retratado pela desolação do casal de amantes no parque Van Dusen, em Vancouver, Canadá, obra do artista George Lundeen.





Karol Badyna é o escultor dessa estátua de Chopin, exposta no Jardim Botânico de Singapura. Tive de brincar com ela!
Johnson Seward nos contempla com duas gostosas brincadeiras em suas criações. Uma está no Queen Elizabeth Park, Vancouver, e já teve uma de suas pessoinhas roubadas por algum maluco, mas felizmente foi encontrada e levada de volta ao grupo. Claro que a gente não resiste a misturar-se em sua "Sessão de foto"



A outra estátua de autoria dele que me divertiu está à entrada do Stanley Park, Vancouver, e se chama "A busca"
Estava eu alugando minha bicicleta quando me deparo com ela e resolvo tirar uma foto a seu lado na volta do passeio. Devolvida a magrela, duas horas depois, corro ao banco e encontro lá, para meu desencanto, uma senhora sentada bem ao lado da estátua. Aproximei-me disposta a esperar que ela se fosse, e fui recepcionada com um sorriso e uma história:
- Coitada! Você sabe, há anos que ela está aí, a procurar, a procurar, e nunca encontra, sabe-se lá o que, não é mesmo? Talvez uma carta? Ou um batom? Eu bem que tenho ajudar, toda vez que venho aqui fico conversando com ela, coitadinha. Tenho pena, ela é tão solitária, e não irá para casa antes de encontrar, sabe-se lá o quê.
Quinze minutos de conversa semelhante e eu desisti. Não tive de coragem de pedir que a senhorinha se levantasse e me permitisse uma foto ao lado da estátua, pois talvez ela nem soubesse que se tratasse de uma estátua! Persisti, voltei no dia seguinte e tirei várias fotos.



Povos que cultuam uma estátua famosa fazem com elas brincadeiras, como é o caso do Manneken Pis, na Bélgica, que volta e meia recebe roupinhas engraçadas para ficar sempre atualizado. Visitei-o na época da Copa do Mundo, 2014. Encontrei espalhadas pela cidade várias réplicas divertidas, Olhem só o que fizeram:



Uma categoria especial de estátuas apreciadas pelos amantes da arte são as que retratam os mortos famosos em seus locais e poses preferidos, como é o caso do Pessoa sentado à mesa no Chiado, em Lisboa, em frente ao bar A brasileira; do nosso Drummond sentado em seu banco em Copacabana. Difícil é a gente entrar na fila e conseguir a tão desejada foto com o ídolo disputado pelas câmaras dos turistas!
Esta estátua em Lisboa lembra a tradição da terra:



Algumas campanhas ficam famosas à base de estátuas coloridas, como as vacas que passearam pelo mundo e enfeitaram por um tempo a Avenida Paulista, com objetivos controversos, incitando inclusive uma Cow Paródia em resposta á Cow Parade. Cito também os curiosos rinocerontes que invadiram Sydney , em uma campanha para defender os animais ameaçados de extinção, promovida pelo Taronga Zoo.

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Aliás, australianos adoram estátuas estranhas, que me convenceram de que os ingleses imigrantes eram pessoas profundamente criativas. Em Adelaide, encontrei esses porcos revirando o lixo.



Em Melbourne, tropecei neste curioso porta níqueis.



Agora, responda-me o leitor se puder: por que motivo está este garotinho plantando bananeira em uma das ruas mais movimentadas de Sydney?



Há sites com listas das estátuas mais divertidas e curiosas, que o leitor paciente pode garimpar pelo Google.

Um poeta e tres esposas - resenha de um livro de Lisa See

sinopse do livro Peônia apaixonada, de Lisa See



Baseado em uma ópera, sobre uma história antiga de fantasmas, o livro atualiza a saga de três esposasem um enredo original e romântico, Há uma referência histórica sobre o massacre de Yangzhou, em 1645, o momento de transição entre as dinastias Ming(chines) e Qing (manchú)
Como consequência da mudança de governo, os intelectuais chineses se retiraram do governo e se voltaram ao 'mundo interior', dedicando-se às artes, escrevendo poemas, pintando, patrocinando artistas em suas terras, afastando do governo para não auxiliarem a prosperidade dos invasores. Para a personagem do livro, isso siginificou a presença do pai em sua educação: ele a sentava no colo e lia os clássicos para ela; desta forma, ao contrário da maioria das mulheres, Peônia é instruída, e desenvolve sua inteligência e sensibilidade.
A mãe da jovem, como ela descobrirá mais tarde, no decorrer da história, foi uma das muitas mulheres da elite que, 'na desordem social que se seguiu ao Cataclisma, quando a dinastia Ming caiu e os manchús se apoderaram do poder, aproveitaram o momento para deixar suas casas e viajar pelos rios navegáveis em botes aprazíveis, escrevendo sobre o que viram e publicando suas observações.
Nessa época, muitas mulheres do delta de Yangzi deram uma nova interpretação às Quatro Virtudes. No entanto, ao criar as filha, a mãe de Peônia severamente a alertava para o significado e intenção originais (virtude, compostura, modéstia e trabalho)'

As Quatro Virtudes :
Chin - sabedoria
Yung - coragem
Jen — benevolência
Li - padrão de conduta exemplar

O livro é interessante sobre diversos aspectos: aborda a anorexia nervosa sob o ponto de vista de distúrbio amoroso; mergulha no aposento das mulheres, encara as consequências funestas da guerra, analisa os costumes antigos, apresentando-nos tanto a sabedoria quanto as superstições desse povo antigo; e disseca o relacionamento amoroso, transcendendo o desejo indo ao âmago do sentimento.

Leitura cativante e encantadora.

Os vestígios do dia - resenha do livro Os resquícios do dia, de Kazuo Hishiguro

Sinopse do livro de Kazuo Ishiguro — The remains of the day

Tema de um filme igualmente brilhante , estrelado por Anthony Hopkins e Emma Thopson.

Introspectivo. Denso. O primeiro capítulo é difícil de ler, há muitos nomes nele,depois a depois a leitura deslancha. O estilo do autor é agradável.
Um mordomo, com seu código de honra, seu senso de lealdade, de dignidade, é algo que só pôde existir na Inglaterra.
Mr. Stevens, filho de mordomo, é obcecado pela questão: o que é ser um grande mordomo? O que é esta grandeza, de que se fala na Inglaterra, até mesmo no nome do país, a 'Grande' Bretanha? Dedicando a sua vida ao cumprimento do dever, Mr. Stevens certamente deixou passar oportunidades de amor, amizade, e mesmo, até, de tomar partido em assuntos morais de grande impacto.
Pode-se perguntar se o personagem carece de inteligência ou é apenas vítima de intensa programação, diria até adestramento, para não ver, não ouvir e não falar. Sua humanidade beira os limites da robótica.
O pano de fundo é a segunda guerra mundial.
O contraponto ao protagonista é a governanta Sally Kenton, emotiva, eficiente e inexplicavelmente, apaixonada por Mr. Stevens.Como este não lhe retribui o afeto, ela deixa o emprego e casa-se com outro homem.
Já velho, o mordomo passa alguns dias passeando pelo país e rememorando os grandes momentos de sua vida: a morte do pai, o convívio com Miss Kenton, que o admira, ainda, e ao encontro da qual está indo nessa viagem; ocasiões em que 'grandes eventos mundiais'foram afetados pelas pessoas que se reuniram em Darlington House, a mansão onde trabalha - porém Mr. Stevens permaneceu o perfeito mordomo: surdo, mudo, calado.
Ao fim da viagem, um desconhecido lhe diz, ao por do sol: (e ele, curiosamente, afirma, que, claramente, o sentido da frase é metafórico!):

`The afternoon is the lightineng part of the day'
(a tarde é a parte mais brilhabte do dia)

Bem, Mr. Stevens, o que lhe restou ao fim de seu 'metafórico' dia?
Terá o senhor o mesmo destino inglório, a mesma morte solitária de seu pai?
(curiosamente, ele nem cita a mãe)
Ao lado da ex governanta, em pé na estação de trem, o mordomo parece enfim compreender...deixo ao leitor, como o faz Ishiguro, as conclusões.

A vida real é mais fascinante do que a ficção - resenha do livro A bibliotecária de Auzchwitz

Sinopse do livro A bibliotecária de Asuchwitz - Antonio G. Iturbe

A vitória é dos que persistem na boa luta.
Há muitos fatos interessantes neste livro, como as pessoas livro — pessoas que memorizavam um livro e todos os dias contavam e recontavam a mesma história, para que o texto não se perdesse. E o recurso ousado utilizado por um alemão para retirar um judeu do campo, levando em sua mochila um uniforme extra e saindo os dois uniformizados, o judeu junto com ele. em seu horário normal de deixar o posto, bem à vista dos sentinelas habituais, que nem deram pelo estratagema.
Por que as histórias de campos de concentração nos fascinam tanto? Eu, pelo menos, fico grudada ao livro e não consigo largar, por piores que sejam as situações ali descritas, torcendo pelos personagens do bem.
E me dou conta de que, para mim, pelo menos para mim, os campos de concentração são uma metáfora de minha realidade, na qual estou presa contra minha escolha. E os nazistas são todas as pessoas más que destroem este planeta que tem tudo para ser um paraíso, os corruptos, os gananciosos, os criminosos, os maus profissionais e políticos corruptos, que se apropriam do uqe deveria ser o bem comum. Se acreditarmos na mídia, parece que os maus-caracteres estão com a bola da vez.
Sim, "este é um mundo horrível", como disse Saramago, e é consolador ler um livro histórico e verificar que a vitória está com os que resistem, com os que conseguem rir apesar de todo absurdo, focar na beleza apesar de toda crueldade, e recusar-se a odiar, pois, como diz um dos personagens do livro, o professor Morgenstern, se nos permitirmos odiar, "eles" terão vencido a guerra, ao nos transformar em um ser moralmente deformado. Manter a sanidade mental e com ela a alegria, em meio ao horror, eis o desafio.
Baseado na vida real de Edita Polachova e seu incrível mentor Fredy Hirsch, que acreditava que alimentar as almas era prioritário, e conseguiu manter o espírito vivo de crianças, jovens e idosos durante anos, em Auschwitz, com o uso de livros vivos (aquelas pessoas de boa memória que decoravam livros), quadros-negros imaginários e uma biblioteca secreta, arriscando a própria vida para organizar uma escola no campo, alimentando a esperança: um dia, quando sairmos daqui, precisamos estar preparados para reconstruir o mundo lá fora.
Atualmente não existe uma guerra tradicional, ela está mascarada: o esmagamento econômico, a hegemonia da mídia, todo um paradigma contra o qual nos defrontamos todos os dias, e que traz, para os mais ecológicos e menos materialistas, a sensação de maldade e sufoco.
Quanta coisa boa acontece e é tão dificilmente alardeada? Quanta tentativa de rebelião ao status quo é cerceada nos bastidores? Os movimentos em prol de justiça e contra corrupção em nosso país são um exemplo recente. (Alguém acredita que não existe censura no Facebook e em outras mídias sociais? Nos e-mails das intranets nas grandes corporações? Manipulação do meio jornalístico?) E um boicote ao trabalho de formiguinha dos milhares de simpatizantes da paz, em grupos de yoga, religiosos, grupos variados de apoio psicológico a todo tipo de problema?
Ao colocar-me no lugar da personagem, percebo que é assim que me sinto: um dia, quando toda essa maluquice que está aí passar, e a vida normal retornar ao planeta — porque esta insanidade destruidora simplesmente terá de parar - precisamos estar preparados para reconstruir a Terra, que o materialismo coloca em risco.
a vida re

A história da migração de um povo em poesia -resenha do livro Encontro com poetas nipo-brasileiros



Tenho em mãos o livro Encontro com poemas nipo-brasileiros. Selecionei alguns poemas que traçam com delicadeza esta transição difícil das ilhas distantes para este inferno tropical. Sensibiliza-me a delicadeza com que aludem a temas delicados. O livro apresenta uma breve história dos rumos das formas artísticas japonesas em solo brasileiro. Os primeiros imigrantes aqui chegaram em 1908.

Haicai - esta forma poética expressa aspectos da natureza e sempre inclui um kigo (uma palavra tema que geralmente é uma flor, ou bicho, ou fenômeno climático) Ao vir ao Brasil o imigrante Nenpuku Sato recebeu de seu mestre uma missão a cumprir:

Cultive a terra e construa um país de haicais. - Kyoshi Takahama
(Hatta utte haikaikoku o hiraku beshi)

Nenpuku compôs seus haiku observando a natureza tropical. Um exemplo:

O brilho
das flores de café
ao nascer da lua.



Cumpriu bem sua missão, pois o Brasil é o país em que mais haicaístas existem, fora do Japão, e onde pessoas de todas as etnias se encantam com os grêmios de haicai, ao contrário do que acontece em outros países cujos povos são menos inclusivos que o nosso.

Tanka - modalidade poética com mais de 1300 anos de história, consistindo de 31 sílabas encadeadas, transmitindo sentimentos pessoais. As pessoas que se reunem para manter essa tradição são verdadeiras chamas guardiãs da cultura ancestral.

Senryû - é um poema satírico que surgiu em meados da Era Edo (século XVII) e utiliza a linguagem moderna para se referir a fatos cotidianos.

Muitos dos poemas, escritos em japonês, perdem a métrica na tradução; no entanto os sentimentos de toda uma comunidade é o aspecto importante desta leitura, e permanece fresco e intato. A literatura japonesa morrerá com seus autores, dos quais restam ainda alguns centenários, porém a nova geração juntamente com os brasileira admiradores dessas formas poéticas levarão adiante essas tradição, agora não mais japonesa, mas aclimatada.

Vamos aos textos garimpados no livro:

Haicais

Rio Ribeira _
canção de colheitas de chá
às suas margens.
Kazue Koyama



Ao som do poema
de Gonçalves Dias
canta o sabiá.
Reiko Akisue



Sabiás gorjeiam_
sensação de aconchego
no país hospitaleiro.
Saoko Kosai



Retornar ao Japão _
no vasto campo seco
sonhos enterrados.
Kazuma Tomishige



No Ano Novo,
telefonema ao Japão.
Felicitações!
Mitsue Ino



Dia do imigrante_
Amor à terra natal
e louvor a este país.
Haruno Nishida



Tanka

Atravessando a rua
com a nora de olhos azuis,
mãos que me tocam
transmitem calor.
Reiko Abe



Passei a gostar mais de futebol do que do
sumô, e assim
fui me integrando no meio dos brasileiros.
Asahiko Fujita



Senryû

Envelheceram os imigrantes
que ainda cantam a terra natal.
Kobayashi Yoshiko



Não se mostra às crianças
a tristeza de fazer das tripas coração.
Suga Tokuji



Ser feliz é decisão de cada um.
A felicidade florescerá onde cultivarmos.
Kazuko Hirokawa



Em 1987 foi fundado em São Paulo o Grêmio Haicai Ipê , sob a liderança de Hidekazu Masuda, carinhosamente chamado Mestre Goga. Em 1996, um catálogo intitulado Natureza - berço do haicai , contendo 1400 kigos brasileiros foi publicado em comemoração ao Centenário da Amizade Brasil-Japão.
Como tantas outras boas contribuições que os japoneses nos trouxeram, sua poesia enriquece nossa visão do mundo. Harmonizemo-nos, pois, com a natureza e com todos os outros povos, nossos irmãos.

Política - da filosofia à neurociência - artigo cultural


"A finalidade da vida política é o melhor dos fins, fazer com que os cidadãos sejam bons e capazes de nobres ações"
Quem afirmou isso? Aristóteles, em Ética a Nicômano
Há fatos curiosos sobre filósofos, estes seres ingênuos e bons, que aparecem de tempos em tempos sobre a Terra.
Confúcio ameaçava ser uma boa influência para o principado de Lu, e o vizinho teve uma brilhante idéia: enviou 80 mulheres jovens de presente ao governante, que passou a dar a elas mais atençao que ao sábio (e que ao governo). Assim, a equanimidade e a justiça passaram a segundo plano...e confúcio, desgostoso, foi passear com seus discípulos procurando em vão quem o escutasse.
Platão enfiou na cabeça a idéia de doutrinar o tirano de Siracusa e convencê-lo a implantar sua sonhada "República". Resultado: acabou preso, e não fosse a intervenção de amigos atenienses que pagaram por seu resgate, dificilmente escaparia de ser assassinado.
Eu tive um ingênuo professor de ética que enveredou pela política e sonhou passar de vereador a prefeito. O bom homem tinha escrúpulos de votar em si mesmo e propos a outro colega vereador, também candidato, que votassem um no outro. O leitor já adivinhou? No resultado - confiável, porque naquelas jurássicas eras a gente escrevia na cédula de papel - o coitado não teve nenhum voto. Zero.
E a família dele? - perguntarão. Sei que ele se divorciou.
Colegas meus, honestos e corajosos, recebiam telefonemas anônimos na calada da noite: "Melhor retirar sua candidatura. Seu filho/sobrinho/neto estudaem tal escola e mora em tal lugar. Entendeu?". Todos entenderam.
Quem conhece informática sabe como é fácil manipular um programa de contagem. Basta inserir uma linha de comando: quando o inimigo X atingir 49% do total, toda contagem subsequente será lida como Y. Não tendo o comprovante em papel, quem vai refutar a tramóia?
Kant afirma que todo homem tem o mesmo propósito na vida: ser feliz. O que ele não esclarece é porque alguns acreditam que para serem felizes devem destruir a felicidade dos outros. Vem em nosso socorro a neurociência: falta ao cérebro desses desgraçados os neurônios espelhos, aquelas preciosas celulazinhas cinzentas responsáveis pelo amor, simpatia e compaixão. Cada uma dessas emoções tem circuitos cerebrais ligeiramente diferentes.
Então, perguntará o leitor, as pessoas que não seguem a regra de ouro, que não têm os tais neurônios espelhos, não são normais? Não! O que elas são? Psicopatas.
Não se assuste o leitor. É fato sabido por todo psiquiatra que a maioria dessa gente não mata, não estupra e não rouba; no máximo inferniza a vida dos colegas do escritório.
A maldade verdadeira se revela em menos de 1% da população. Falo dos loucos por poder, os que não se deterão diante de nada. Menos de 1% de gente gananciosa e sem escrúpulo levaram nosso planetinha azul à beira do colapso. Nós, os normais, somos 99%.
Vamos agir?

Pânico de aeroporto - conto


Entendo, sim, ah, como entendo!
Você passou pela pior experiência de sua vida e está traumatizado; teve um colapso nervoso, quase perdeu o avião, passou meses à base de tranquilizante e o psiquiatra desistiu de tentar tratar você.
Você agora quer cancelar as férias, desistir da viagem planejada pela família, seus filhos o odeiam e a mulher quer o divórcio, A situação pede medidas desesperadas, eu sei. E creio ter a solução.
Nem sempre uma pessoa tem tempo de familiarizar-se com a situação problema em terreno amigável, experimentar o enfrentamento na infância, em grupo, em seu próprio país.
Eu, como você, vivi minha primeira experiência de horror na maturidade, na frente de filhos na pior idade, sentindo a pressão interna de ser o modelo, de dar exemplo, corresponder à imagem de pai herói, essas imposições mentais que nós, simples mortais orgulhosos, sofremos antes de conhecer o tamanho do monstro.
Em Guarulhos o estresse de aeroporto foi administrável. Aquela multidão apressada e indiferente comunicava-se em português. as placas e painéis idem, o cuidado maior era escapar de bandidos que roubam as meias sem tirar os sapatos do assaltado, sei que você me entende. Vai-se ao banheiro com um olho nas crianças e outro nas malas. Em minha primeira viagem, as danadinhas não tinham quatro rodas, como as de hoje. As malditas escorregam das escadas rolantes, tombam, rolam, entravam nas portas dos elevadores e pesam toneladas, balançando perigosamente na pilha arrumada no carrinho de bagagens, carrinho que insiste em desviar para um dos lados.
Meu batismo de fogo foi Toronto, onde eu fiz conexão e precisei fazer o translado das malas. Entendo porque muitos pagam cinco vezes mais caros por menos tempo de passeio. Sofre-se menos acompanhado.
Confiante em meu francês, logo descobri que do fora de Quebec quem se exprime em francês são somente as placas. Já no primeiro minuto senti-me perdido. Compreendi que teria de me bandear com crianças e malas para outro aeroporto, um doméstico. Ante o meu ar desesperado, um funcionário solícito chamou por outro, que "falava a minha língua": espanhol! Chamei de volta o canadense, Escrevi bilhetes, que não tem sotaque...
Enveredei por corredores sinuosos, desci, subi, enganei-me, refiz o percurso suando, embarquei em um pau-de-arara versão aeroporto, um ônibus que transporta gente em pé e de alguma forma as malas e as crianças têm de ser contidas - como? Em meio a olhares furiosos e críticos, atravessamos um viaduto e fomos finalmente despejados em um terminal do doméstico, infelizmente o terminal errado...
Claro, o número do vôo está impresso na passagem, só que o painel luminoso parecia não ter sido avisado. Infeliz, permaneci estático observando as conexões que se sucediam brilhando e piscando, insistindo em ignorar a cidade de Vancouver.Quando finalmente o portão de embarque resolveu aparecer no painel, precisei localizar o danadinho fisicamente. Havia um mapa imenso em uma das paredes, para facilitar a vida dos perdidos no labirinto. Bela tentativa, no meu caso, inútil. Meu cérebro disléxico interpreta mapas às invertidas. Disléxicos travam sob tensão.
Os elevadores, por alguma sinistra intervenção, escondiam-se de mim. O jeito era uitlizar rampas e exercitar os braços ladeira abaixo ou acima. A essa altura eu agradecia ao universo porque letras e números são iguais em português e em inglês, mas tive pouco tempo para alegrar-me por não estar no Japão ou na Arábia. O primeiro corredor desembocava em um segundo, e este em um terceiro, mais longo e deserto. Quando pensei ter chegado ao destino final, encontrava-me diante do blacão de entrega de malas. Depois de breve descando, a brincadeira de "descubra seu portão"recomeçou, sem as malas, felizmente.
Indicaram-se a direçao B4, embora no painel eu lesse C7...eu em francês, o outro em inglês, desconversamos em um mapa, rascunhado com um "x" que deduzir marcar o local de nosso embarque.
Não era no B nem no C e quando descobri isso eu já emagreceram alguns quilos, perdera a cor e a voz. Um anjo jogou em meu caminho outro brasileiro tão perdido quanto eu, mas com a vantagem de falar inglês.
Um guarda impaciente, aos gritos de "go! go!" apontou um túnel adiante. Corremos loucamente, o rapaz, eu e as crianças. (como era bom estar sem as malas!). Desembocamos em uma espécie de praça, onde uma senhora suspirou, aliviada ao nos ver, em português:
- Gente! Graças a Deus! Estou aqui já tanto tempo!
Nisto aproximou-se uma perua, vazia, a buscar pelos retardatários: nós. Ventie minutos depois parou e deu instruções ao rapaz que nos guiou até o embarque. Ouvimos no trajeto a úlitma chamada, como compreendi pela agitação do rapaz.
Fui o último a entrar, sem direito a banheiro, lanches, compras, nada.
As crianças me olhavam caladas, em um misto de decepção e piedade pelo pai desalojado do pódio. Consolaram-,me com beijos molhados e acariciavam meu rosto com mãozinhas trêmulas, a repetir como um mantra "está tudo bem".
A vida ;e impiedosa. A proxima viagem, onde eu ingenuamente pensara embarcar, para Paris, como um "connaîsseur", me surpreendeu com novas torturas: check-in eletrônico, drop-off de calçada, GPS, aplicativo para acompanhar informações de voo pelo celular.
O pobre viajante agora precisa ler uma lista telefônica de instruções antes de descobrir em dez segundos que com ele a tecnologia empaca e o direciona ao blacão, onde um profissional educado não coloca em palavras o eloquente olhar: "por que cargas d'água esse sujeito não fez tudo online?"
Segui pela vida, sofrendo entre senhas e terminais, simplesmente porque minha paixão por viagens é maior, miuto maior que meu pânico de aeroporto até que...

- A mãe (de 87 anos) vai junto com você, levando duas malas de 32 quilos, mas não se preocupe que eu já pedi cadeira para ela.
- Mãe? Cadeira?
- Claro, irmão, caderia de rodas, para idosos, depois do balcão de embarque.Até lá você leva.

Chorei noite seguidas. Às escondidas. No escurinho do quarto. Meus pesadelos recorrentes versavam sobre a impossibilidade de atravessar os longos corredores de aeroportos com mãe, cadeira de rodas, malas. Como eu iria dar conta? Dessa vez emagreci antes do vôo.
A confusão começou já em Guarulhos, em reforma, sem sinalização, e o taxista folgado que desconhecia o caminho:
- O senhor desce lá e pergunta, faz o favor, que eu não posso deixar o táxi.
Lá fui eu, atravessei o estacionamento, cruzei duas pistas congestinonadas e falei ao atendente do balcão de informações:

- Minha mãe tem 87 anos, está lá no estacionamento, fiz o pedido de uma cadeira de rodas para p Delta Airlines, como faço para ...
O risonho rapaz nem me deixou terminar a frase. Chanmou alguém da Delta pelo telefone:
- Uma passageira de 87 anos está no estacionamento, tem como ri lá buscar? É uma situação especial.

Menos de cinco minutos depois um funcionário ligeiro e atencioso foi buscar mamãe, chamou outro colega eficiente para ajudar no transporte das malas. Segui atrás deles, em passo acelerado, maravilhado em ver como os elevadores apareciam magicamente quando precisávamos deles, passamos à frente na fila do despacho das malas e na de embarque. O rapaz só nos deixou à porta mesmo do avião.
Na descida, a comissária de bordo me avisou que nem levantasse. Após todos descerem á que a cadeira apareceria à porta da aeronave. Novamente fomos conduzidos diretamente à esteira, onde o funcionário pegou as malas e as acomodou na carrinho, passamos à frente no setor de imigraçao e, do lado de fora, fomos transportados por um carrinho elétrico por rampas seniosas e intermináveis até a saída.
Assim descobri: acompanhar idoso é tudo de bom!
Esqueça as dificuldades todas - rampas, painéis, elevadores, portões. Conheça finalmente a alegria de voar. Se você não tem o seu próprio idoso, procure-me, que eu alugo mamãe.
Isso mesmo. Eu alugo a mamãe.
Antes de me censurar, saiba que a idéia partiu dela. Mamãe adora viajar, é saudável, culta, bem-humorada. Ela se compromete a levar apenas bagagem de mão e despachar duas malas de 32 quilos para você. Faça as contas e confira. Pagar a passagem de mamãe sai mais barato que pagar excesso de bagagem.
Mamãe só pede que você pague a passagem dela com três dias de intervalo para os passeiios, nso quais, se você quiser, ela o convida para partilhar meais entradas e acesso preferencial para acompanhantes de idosos.
Mamãe paga pelas próprias refeições, passeios e diárias de hotéis.
Faça como eu, que já comuniquei a meus médicos que a partir de agora dispenso terapias, florais e ansioliticos ineficazes.
Mamãe é melhor que Prozac.