quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sonia R R Rodrigues, escritora


     
Quem sou eu : Sonia Regina Rocha Rodrigues

Nasci em Santos, uma cidade espremida entre o mar e a serra, à parte do continente. Nascer em uma ilha, se de um lado nos isola, de outro nos abre para o oceano, com todas as possibilidades de viagens, descobertas,conquistas e sonhos.

Fui médica por opção e sou escritora por vocação. Minha mente inquieta é fascinada pelo mundo das palavras. Meus pés inquietos exploram trilhas e locais exóticos. Meu desafio é observar a vida, garimpando situações que pedem para virar texto.
Membro da União Brasileira de Trovadores - Seção Santos.


          Escrevi alguns livros.
          Prossigo viajando pela vida.
       



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 É suave a noite.
Revisão de Edilza Fernandes.
Ilustração de capa de Maria Christina Amorim.


À venda pela internet no site da Bookess Editora

Reúne os melhores textos premiados em concursos ou selecionados para publicação na mídia.


Disponível, também em formato digital:  epub e mobi.


Sinopse:
Em 1996 tive a alegria de ter meu conto A auditoria escolhido para representar a cidade de Bebedouro, onde eu então residia, na fase municipal do Mapa Cultural Paulista.
A presença e Um dom de família foram textos publicados peloa Bigtime Editora, em 2013, por terem recebido o prêmio edição em concursos de contos e crônicas, respectivamente.

No Concurso Mário Cova, promovido pela prefeitura de Santos, foi premiado em primeiro lugar em 2003 o conto Se estas paredes falassem; em 2004, em segundo lugar, a crônica Ser santista.
A sentença, um de meus preferidos, ficou entre os dez melhores contos no concurso de Araçatuba em 2005.
Os demais contos em algum momento foram selecionados para publicação em sites diversos, entre eles BlocosOnline.
Convida vocês a conhecerem os textos e mergulharem na letiura.




           



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domingo, 1 de maio de 2016

É suave a noite

(esta crônica da nome ao livro de Sonia Regina Rocha Rodrigues)

_Nut, a deusa da noite, estende seu manto negro para proteger o sono dos homens.
_Nut?
_Nut, a deusa da noite, cobre seus filhos com esse magnífico manto estrelado.
E enquanto minha tia falava, as últimas luzes do dia sumiram por trás da serra e escureceu. Era uma noite sem lua. Eu podia ouvir os vagalhões do mar e o farfalhar dos coqueiros soava mais alto. Milhares de sons apareciam com as trevas – sapos, corujas, mariposas em vôo. O mundo trocava as cores por sons. E a orquestração era magnífica.
Pude sentir os cheiros, que, à noite, ficam mais intensos. Lírios, camélias, damas da noite...e eu quase podia provar o mar no sabor salgado da brisa.
Ah! Como eu me sentia segura nos braços amorosos de Nut, que, nas minhas recordações, confunde-se com minha tia.
Por isso eu andava confiantemente pela casa às escuras, se acordasse com sede durante a madrugada. Por isso também era eu que, quando faltava energia, subia as escadas sozinho e ia à despensa buscar velas e fósforos.
_Tia, essa deusa Nut é de que país?
_Egito, meu amor.
_Aquele país das pirâmidos e dos desertos?
_E dos faraós.
_Da Esfinge.
_Das tempestades de areia.
_Dos oásis.
_Dos camelos.
E assim os temores que eu nem chegava a sentir transformavam-se em exóticas maravilhas.
Aprendi a amar a noite, e decifrar em seus cheiros e sons tão bem quanto nas cores e formas do dia.
É por isso que durante as horas mais negras, eu prossigo como quem atravessa uma tempestade de areia no deserto, na certeza de que as tempestades passam, e há sempre um oásis um pouco mais adiante.

Poetas são diferentes



"Num dos raros sonhos meus
e tavez no mais bonito,
eu peguei nas mãos de Deus
e rezamos no infinito".

...declamou o poeta Antonio Colavite Filho, trovador há 35 anos, em uma festividade no Orquidário de Santos.
Aqueles que focam no espiritual envelhecem com bom humor, sabedoria e gratidão pela vida. A saúde mental consiste em focar nos sentimentos e pensamentos positivos: beleza, harmonia, amizade, solidariedade.
A saúde física acompanha as boas disposições do espírito. Sofre menos quem ama mais. Quem participou dos Jogos Florais de Santos pôde verificar que, entre poetas de todas as idades, os mais animados são os mais velhos, cujas trovas, como vinho, melhoram a cada ano. Colecionando prêmios e amigos, essas almas inspiradas viajam felizes pela vida e pela arte.
Desde bem moça eu vivo em meio de artistas. Pintores, músicos, atores e escritores. A criatividade acrescenta um encanto peculiar à vida. Ninguém se aborrece ao lado dos artistas. Eles têm a capacidade de reinventar a vida, fazem da monotonia a oportunidade de olhar com olhos novos o cotidiano.
Artistas dão à vida o melhor de si.
Cada arte tem a sua própria maneira de moldar o cérebro do artista. Os trovadores são os que mais me encantam. A alegria deles é contagiante. Se reclamam de algo, é com humor, com piada. Estão sempre a brincar com as palavras. São solidários e espalham carinho em festas voluntárias em asilos, escolas e instituições variadas.
Trova é citada como gênero menor, vende pouco, não é mais divulgada em almanaques e suplementos literários. O importante é que haja trovadores, perpetuando um modo de vida dos "velhos tempos que não voltam mais". O ponto é que os novos tempos podem ser até melhores!Depende apenas de cada um de nós.
Novos tempos para as gerações futuras. Novos tempos para nós mesmos.
Envelhecer com dignidade e deixar boa marca no mundo está ao alcance de cada ser humano, a escolha é pessoal.
"Nunca respeite ninguém pelos seus cabelos brancos. Os canalhas também envelhecem." é o alerta que nos deixou Victor Hugo.
O indivíduo que passou a vida no crime não vira santo ao envelhecer. A hipocrisia do mundo poucas vezes é tão nojenta como na visão do velho tarado, do corrupto inveterado, do mentiroso compulsivo, que, como escorpiões, envenenam qualquer membro da família que for tolo o bastante para apiedar-se dele.
Quem quer respeito, deve se respeitável e respeitador. Quem quer amor, deve ser amável e amoroso.
Certamente as punições por crimes não prescrevem porque o criminosos envelhece! A meu ver a idade avançada, inclusive, deveria ser um fator agravante! Viveu e não aprendeu? Ainda por cima dá mau exemplo? Pena em dobro!
Triste perceber que tantos passam a vida reclamando. Outros desperdiçam os anos perseguindo prazeres materiais e efêmeros.

Os artistas são o contra-exemplo. Transformam as asperezas da vida em sonhos, textos inspiradores, cores deslumbrantes, formas ousadas, rimas preciosas.
Poetas dão ao material o justo valor enquanto buscam a eternidade.
Cada um, portanto, envelhece a seu modo.
A boa notícia é que você pode escolher como quer envelhecer. Tolo? Canalha? Generoso? Sábio?
Eu já escolhi. Quero envelhecer como os poetas.


publicado no site Digestivo Cultural em 14/10/2015

Lá na ponte de Avignon ... - a história da canção

Além de receitas deliciosas e de paisagens incríveis, a França tem foclore Vamos falar sobre a ponte Saint-Benezèt - a famosa ponte d'Avignon.

Uma canção histórica
fonte: Danièle Badois, Mission de l'Inventaire Historique d'Avignon
Arquives Municipales d'Avignon
(à l'affiche de la pont Saint- Benèzet - fundada em 1117)

Visitando o Palácio dos Papas, em Avignon, França, temos acesso à famosa ponte da canção, e a um acervo de informações interessantes.
Há registros de canções sobre a ponte desde o seculo XV, mas as primeiras canções se perderam; eram chamadas 'complaintes des oreillers' (em ingles pillow songs)
É em 1503, em Veneza que se tem o primeiro registro, pelo editor de músicas Ottaviano Pettrucci de Fossombrone, que apresenta esta fórmula simples:

Sur la pont d'Avignon
Ma belle passe et repasse.

Em 1575, existe um manuscrito musical escrito pot Lucques, com a letra:

Sur le pont d`Avignon
J'ouys chanter la belle,
Qui en son chant disoit
Une chanson nouvelle.

Em 1602 há uma canção conhecida como La Péronelle:

N`a vous point vue la Peronelle
Que les gents d'armes ont amenée
Et où?
Sur le pont d'Avignon j'ay ouy chanter la belle
Qui dans son chant disait une chanson nouvelle
Et quelle?

Em 1711 é recolhido outra adaptação ao gosto da época chamada Brunettes et Petits Airs Tendres

Sur le pont d'Avignon
J'ay ouy chanter la belle
Qui dans son chant disait:
Et baise-moi, tandis que tu me tiens
Tu ne me tiendras plus guère

Em 1811, le pont Saint-Bénezet, que estava em ruínas devido às enchentes do Ródano, é restaurada e sua reinauguração é saudada pelos habitantes de Avignon com a canção tradicional remodelada:

Sur le pont d'Avignon
Désormais, sans bac ni bateau (bis)
A son aise on peut passer l'eau (bis)
Chacun salue à sa façon.

Les beaux messieurs font comme ça
Et puis encore comm'ça
Leur chapeau passa, repassa
Les belles dames font comm'ça


Le pont étant bien étrenné (bis)
Chez soi chacun est retourné


Em 1843, Du Merson dá ao texto a forma mais próxima pela qual a conhecemos nos dias atuais, em seu Chansons et Rondes enfantines:

Sur le pont d'Avignon
Tout le monde y danse, danse
Sur le pont d'Avignon
Tout le monde y danse en rond.

Em 2 de fevereiro de 1853, l'Opéra Comique de Paris, o compositor Adolphe Adam introduz a canção, fixando o ritmo e a letra em sua opereta, adaptação da peça Le Sourd ou l'Auberge pleine.
A seguir seguem-se diversas produções artísticas com sucesso internacional, em 1876, em 1937 (autoria de Liette de Lahitte com música de Jane Vieu), e 1958, com o compositor alemão Karl Marx.
Enfim, a música é hoje um patrimônio cultural mundial.

Quem foi Benezèt?
(informações orais do guia em Avignon)
Conta a lenda que Benezèt era um jovem pastor de 17 anos que um dia ouviu a voz de Deus lhe dizendo para construir uma ponte sobre o Ródano, com acesso ao palácio do Papa. O pastor foi até o papado, onde ao ser recebido em audiência, assombrou o papa Clemente V com sua estranha proposta. O Papa, atônito, ficou calado, mas todos os presentes gargalharam.
A ponte era necessária pois as pessoas da outra margem ficavam separadas pelas fortes correntezas do rio; o pastor, para provar sua missão divina, carregou sozinho nos ombros uma enorme pedra e a colocou no leito do rio - essa foi a pedra fundamental da ponte.
As enchentes do Ródano são extremamente fortes em certos anos, pois recebe água das geleiras na primavera, e a ponte foi parcialmente destruída muitas vezes; dos seus 22 arcos originais só restatam 4. Atualmente existe uma reclusa acima de Avignon, e uma nova ponte, mais moderna, substituiu a ponte Benezet na função de circulação rodoviária.
Benezet morreu durante a obra, aos 25 anos. Foi enterrado numa capela feita sobre o terceiro arco da ponte. Tornou-se o santo patrono de Avignon. Depois de quase 500 anos seus restos mortais foram removidos e estão na igreja de Saint Didier em Avignon.



publicado no site Digestivo Cultural em 26/10/2015

Entrevista com a escritora Carolina Ramos



Quem é Carolina Ramos

Mais conhecida como trovadora, esta escritora santista tem um vasto currículo e 16 livros publicados.
Professora, pintora e musicista recebeu inúmeras premiações no Brasil e no exterior nos gêneros Poesia, Conto, Trovas e Crônicas. Membro de várias academias, seus principais títulos e obras estão citadas no fina do artigo.

1 - Como descobriu a sua vocação para a poesia?
Nem sei dizer. Simplesmente, aconteceu! Comecei a fazer poesias quando minha segunda filha nasceu. Deu-me um "baile" de quase 5 meses de noites mal dormidas. E, aproveitando as horas insones, sem mais nem menos, comecei a fazer versos. Tomei gosto! Como a minha tendência era para o verso acadêmico, comecei a estuda-lo com afinco. E... acabei virando poetisa. Mas, entendo, que não foi a técnica que me fez assumir essa condição e, sim, qualquer coisa que já vinha comigo e que só precisava de um pretexto para aflorar. O mais apenas ajudou!

2 - Quais os principais prêmios conquistados?
Todos os prêmios, têm sua importância, quando nos chegam. Recebo cada um deles com a mesma alegria, como se fosse o primeiro e com especial carinho, como fosse o último. Os internacionais sempre causam um "frisson" extra. E assim também acontece com a diversidade dos gêneros literários, que, de certa forma, têm peso diferente! Depois de algumas premiações em poesia, a premiação de um conto, seja lá aonde for, é algo que faz um bem especial à nossa autoestima, principalmente quando esse prêmio vem de Portugal, onde nossa língua é a mesma, porém o uso que dela fazemos nem sempre é aprovado por lá. Assim, quando meu conto, "A Cadeira Velha" , deu-me um 1º lugar num Concurso, em Lisboa, exultei!
Como, foi também uma emoção muito grande ter recebido, em sessão da Acad. Bras. de Letras, das mãos do seu Presidente, Austregésilo de Athayde, a Medalha conquistada pelo meu poema, "A lagarta e a borboleta" , que ele me trouxe de Setúbal, Portugal, sendo-me entregue pessoalmente, em Sessão pública da Acad. Brasileira de Letras, em 30/12/65.
Também o acirrado Concurso do Rotary do Rio, cujo prêmio era a cobiçada "Lira de Ouro" , verdadeira joia, disputada por 10.000 trovas, num tempo em que não havia limite para o envio delas, considero uma vitória que se destaca das demais, assim como a que me deu o título de Magnifico Trovador", conquistado em Nova Friburgo/1974. Mas, repito, todos os prêmios são bem-vindos! Confesso, que tenho como hobby participar de Concursos. Para ganhar, se possível! E, também, para perder com humildade, capaz de aplaudir quem vence, com o mesmo entusiasmo! O importante é saber que, o maior prêmio que o concorrente ganha de início, é ter feito aquela poesia, aquele texto, ou aquela trova que aquele Concurso motivou, estimulando-o a compor! O mais, é pura emoção passageira.

3 - Pode dar um exemplo de trova lírica, filosófica e humorística?
Pensando que pede trovas minhas. Aqui vão:

Lírica:

Fecho os olhos... e me invade
um torpor de nostalgia...
- abro os braços à saudade
e ela aos teus braços me guia...

Filosófica:

Guarda sempre esta mensagem
da própria vida, que diz:
- É feliz quem tem coragem
de acreditar que é feliz!

Humorística:

Bichinho cheio de manha,
terno e manso quando quer...
mas, zangado, morde e arranha...
É gato?! - Não! É mulher!

4 - Os temas trabalhados em trovas devem ser baseados em valores e sentimentos? (caridade, amor, etc.) Ou qualquer tema é passível de ser abordado pelas trovas?
A trova é uma espécie de caixa, quadradinha, que se pode transformar num porta-joias, aceitando qualquer "coisa" que, bem trabalhada pelo artífice, pode ser transformada em algo de muito valor! Os temas podem ser infinitos, e, dependendo do talento e habilidade do trovador, todos, absolutamente todos, podem caber numa trova, quer seja ela de natureza lírica, filosófica ou conceituosa, religiosa, satírica, mordaz, humorística e mesmo mista, englobando, ou mesclando, duas ou várias destas classificações.

5 - Por que a Trova é modalidade poética pouco divulgada pela mídia?
Expliquei no livro "A TROVA - Raízes e Florescimento - UBT" que a Trova, embora cultivada,"en passant", por quase todos os poetas que deixaram seu nome nos anais da nossa literatura, não conseguiu que eles se fixassem nela, porque, na verdade, a trova para ser boa exige simplicidade, humildade e caráter popular que chegue à alma dos simples, não oferecia os mesmos focos de luz que um soneto ou um poema bem elaborado. E que os catorze versos de um soneto poderiam dizer mais do que aqueles simples quatro versos de uma trova, que desprestigiada era classificada de simples quadrinha. Desconheciam o fantástico poder da síntese da Trova e os achados, que tanto a valorizam e que se constituem nas maiores dificuldades que enfrenta o autor ao compor uma trova. Em outras palavras, a Trova não lhes dava Ibope.
A partir da criação da UBT por Luiz Otávio, a Trova ganhou terreno, bons poetas por ela se interessaram e aos poucos foi aceita nas Academias de Letras. A Trova estendeu-se, do Brasil à Europa num rumo inverso o que muito nos lisonjeia! E quem, ainda hoje, não lhe dá o devido valor é porque está por fora do que, na verdade, acontece na nossa literatura. A poesia trovadoresca é a que mais perto chegou da alma do povo brasileiro que, fugindo ao preciosismo, ao hermetismo e até a um certo pedantismo que algumas vezes lhe oferecem outros gêneros, aceita a Trova como um pingo de mel que adoça seus lábios e lhes chega ao coração levando-lhes lirismo, ensinamentos, filosofia, ou seja, o infinito que ela carrega dentro de si! A mídia, infelizmente, ainda não descobriu isto!

Jogos Florais de Santos, 2014

6 - É possível viver no Brasil, como escritor, mais especificamente, como poeta?
Acho muito difícil "viver no Brasil" (e em outro lugar também) como escritor e muito mais ainda, como poeta. Claro, que devem existir exceções! Mas é preciso nestes casos que estejam presentes, não apenas o talento do escritor ou do poeta , mas ,também, uma série de circunstâncias muito especiais, difíceis de se casarem com os desejos de quem espera ascender, sem combustível suficiente ou, então, alguém que ajude a sua ascensão. Sabem, aqueles que se apaixonam e se entregam às letras, que a melhor "remuneração" que um escritor, e, principalmente, um poeta, pode esperar como resposta aos seus esforços e dedicação é a sentir que sua mensagem encontrou verdadeiramente ressonância no coração de alguém. Esta é a suprema gratificação! O mais, é ilusório e fugaz, que pode amaciar o ego e aquela vaidadezinha, inevitável, que lhe serve de berço e lhe dá certo status mas que absolutamente não lhe garante o pão e nem o sustento dos filhos. Salvo exceções, que no momento não me ocorrem, o escritor que vive confortavelmente, e, sem preocupações econômicas, tem atrás de si uma estrutura anterior, que lhe assegura e resguarda o bem estar, permitindo-lhe viajar, gostosamente, pelo Mundo das Letras. É então o que se pode chamar de um artista privilegiado. E para que se possa beneficiar, tirando partido disso, é preciso que, conscientizado e sem se deixar arrebatar, seja capaz de, manter fluente, essa substancial fonte de rendas que o sustenta, em paralelo às demais, que, mais atrativas, alimentam seus sonhos.

7- Atualmente, como é o seu dia a dia? Como divide o seu tempo entre escrever, ler...
Sou mulher e a mulher dificilmente se aposenta, a não ser por auto deficiências que lhe dão um basta, quando ainda talvez desejasse continuar. Aposentadoria, só no papel! Filhos criados, divido meu tempo com o marido, os afazeres domésticos que não delego a ninguém, contratando alguém de 15 em 15 dias para me ajudar. Claro que não sou mais aquela dona de casa que eu era, e entre uma vassoura usada com menor frequência, eu diria que prefiro, não a caneta, ultrapassada, mas o teclado do computador, que é mais ágil e me ajuda a pescar as ideias que tecem os meus escritos, que hoje, não querem mais saber de rascunhos. Criei meus filhos sem deixar de compor. Meus três primeiros livros pertencem a esse tempo. Escrevo muitas vezes, mentalmente, enquanto trabalho. E depois despejo tudo no computador. Durante o dia minha escrita é entrecortada de interrupções. Assim tornei-me boêmia das madrugadas varando noites, quando o que tenho a escrever exige maior concentração. Sou consciente de que isto me prejudica. Mas, fazer o quê?! Quanto à leitura, posso dizer sem erro, que hoje escrevo mais do que leio. Mesmo assim, geralmente leio de dois a três livros ao mesmo tempo, dependendo de onde os deixo. Por vezes, confesso, percorro algumas páginas centrais obliquamente, porque, hoje, minha visão, algo precária, tornou-me obrigatoriamente seletiva. Em jovem, fui leitora voraz! Jornais, em geral, só pela manhã!

8 - Falando em e-books, hoje, com novas tecnologias, muito se ouve falar sobre esse mercado. Como escritora, como você vê essa tendência?
Ainda não estou bem afeita a essas "novidades" que às vezes me atrapalham um pouco quando tento abraça-las, já que as considero pertencentes a um tempo que ainda é meu. Embora considere uma surpresa bem cômoda, ler um livro numa tela iluminada, sem ter de busca-lo numa biblioteca, causa-me maior prazer, lê-lo, página por página, sem sentir meus olhos violentados pelo brilho de uma tela. E, depois de saboreado o seu conteúdo, fechar este livro, com carinho, dando-lhe um lugar numa estante, sabendo-o sempre ao alcance da mão, quando o quisesse reler, para mim, pelo menos, não tem preço! Festejo as novas conquistas eletrônicas como dinâmicos meios de divulgação, mas não creio que venham a fazer sombra aos livros editados normalmente, ao menos para os que os aprenderam a ama-los, tendo-os como companheiros fieis durante toda a sua existência!

9 - Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
Que posso dizer àqueles que, pacientemente, leram minhas considerações? Um recado? Que seja este:

- Mais amor, menos ódios, mais fraternidade, respeito, compreensão e fé! O mundo está sumamente carente de tudo isto! E, no entanto, só através de tudo isto é que alcançaremos a tão desejada PAZ! Só assim poderemos ter certeza de que a poesia, hoje em perigo, não morrerá! E o Homem, que aos poucos se embrutece, conscientemente, há de voltar a ser gente!



Livros publicados:

"Sempre" de Poesias, 1968
Cantigas feitas de Sonho ,Trovas, 1969
Rui Ribeiro Couto - Vida e Obra (Biografia)
Trovas que Cantam por mim
Interlúdio (contos)
Paulo Setúbal - Vida e Obra , (biografia) co-autoria/Cláudio de Cápua
Feliz Natal (contos natalinos)
Príncipe da Trova (Biografia e História da Trova no Brasil)
Saga de uma Vida (biografia)
Um Amigo Especial (ficção para a juventude)
Júlia Lopes de Almeida (biografia)
Liberdade - Sonho de Todos (prosa e verso) EditoraAção, 2010.
Destino , 2011

Títulos, prêmios e agremiações:

Membro da Academia Cristã de Letras de S. Paulo.
Acad. Santista de Letras
Acad. Fem. de Ciências, Letras e Artes de Santos
Acad. Peruibense de Letras
IHGS - Instituto Histórico e Geográfico de Santos (que presidiu por 7 anos), Pres. da UBT-União Bras. de Trovadores/Seção/Santos Título de "Magnífico Trovador".
Homenagens e Prêmios Honoríficos recebidos por sua atuação cultural: Medalha do Sesquicentenário de Santos
Medalha de Honra ao Mérito " Brás Cubas"/Câmara santista
Medalha José Bonifácio, do IHGS - Instituto Histórico e Geográfico de Santos
Medalha "Luiz Otávio", comemorativa do Centenário do Poeta.(UBT - Seção Porto Alegre)

As fotos desta entrevista foram montagens feitas a partir de originais cedidos pelo jornalista João Paulo Ouverney

Entrevista com a escritora Lu Menezes



Em 2017, Lu Menezes agitou Santos com o maravilhoso projeto Autoria Cultural.

Lu Menezes é santista, publicitária e escritora. Daquelas que entendem como ninguém a sobreposição de papéis e as contradições que permeiam nossos relacionamentos e cotidiano. Morou em São Paulo, Londres, Belo Horizonte e hoje se concentra na baixada. Viajante por opção, trabalho e oportunidade, aproveitou suas escapadelas pelo velho mundo pra aprender mais sobre as dicotomias, graças e malfeitos que acometem a todas as filhas de Maria. Assim nasceu Baião de Três. Uma mistura gostosa de tudo isso.
Cronista de jornais catarinenses, idealizadora de oficinas de escrita criativa e literatura, Lu também é blogueira, veja abaixo o nome de seu blog , onde se diverte com causos e contos, que retratam o dia a dia e brincam com nosso jeito de ser e ver a vida.


1. Quando você começou a se interessar por literatura?
A literatura sempre esteve presente na minha vida. Desde a infância. Com contos e personagens que se somavam as minhas próprias histórias. Como não partilhar das malandragens da boneca Emília? Ou não desejar ter o meu próprio pé de laranja lima? Foi mais ou menos assim que tudo começou. Lendo. E logo queria escrever. Mania que ainda me acompanha. Até os dias de hoje.

2. Como foi seu início no meio literário?
Sempre escrevi. Em alguns momentos, mais. Outros, menos. Mas o trabalho com leitores veio em 2010, quando comecei a escrever crônicas para o jornal Agora Meio Oeste, de Videira (SC). Trabalho embrionário. E que serviu de ensaio a composição do meu primeiro livro, Baião de Três. Na sequência, veio o blog, www.letrasecontos.com . E projetos de novos livros. Escrita é isso. E quem escreve sabe. Que não tem cura. Nem volta. Jamais.

3. Conte sua experiência nas Oficinas Culturais Pagu.
Comecei a trabalhar com oficinas em 2013, em Videira (SC). Daí vieram os encontros em minha cidade, Santos, nas Oficinas Culturais Pagu: um espaço ímpar, onde as mais diversas formas de expressão cultural se encontram. Disseminando arte e educação por toda a baixada santista. O foco das oficinas é a discussão e a produção literária, privilegiando a fluência discursiva e a busca por uma escrita mais consciente, focada e balizada em técnicas que favoreçam o nosso processo criativo.

4. Como você percebe o atual cenário literário brasileiro?
Hoje escreve-se muito no Brasil. O que é fantástico. Mas ainda precisamos pedalar um bocado até que os espaços e oportunidades atendam às necessidades reais do mercado literário nacional. Com chances efetivas de trabalho para os novos talentos e condições satisfatórias aqueles que tencionam viver das letras.

5. Quantos e quais são seus livros publicados?
Tenho um livro publicado até o momento. Baião de Três, um livro de contos e crônicas, que trata de gente, em seus pecadinhos cotidianos e histórias mais corriqueiras. Lançado em agosto de 2013, pela Editora Alley. E trabalho em outros dois projetos, com previsão de término até 2017.

6. Algum escritor exerceu impacto em sua obra? Quem? Por que?
Muitos. Vários. E são tantos que fica difícil nomear alguns. Mas gosto de citar Nelson Rodrigues, Gabriel Garcia Márquez, Jose Saramago e Luis Fernando Veríssimo, como nomes que influenciaram diretamente a minha escrita e forma de "ler" o mundo.

7. Quais os seus projetos para 2015?
Estou cem por cento comprometida com os novos livros que estou escrevendo, mas é claro que os "causos" do blog continuarão sendo publicados semanalmente. Além das novas oficinas que ainda vêm por aí.

8. Deixe uma mensagem final. Obrigada.
Obrigada, você, querida amiga, pelo bate-papo. Ainda mais quando o assunto é esse. Literatura. Escrita. Leitura. Prazeres que abrem portas e mentes. Que mostram caminhos e possibilidades que tornam nossas vidas ainda mais deliciosas de serem vividas. Aos bocados. Que assim é bem melhor. Só que vicia. Então, venham preparados...

Site da Lu: Letrasecontos

resenha do livro Sete Anos, de Fernanda Torres





O livro reúne textos publicados entre 2007 e 2013 nas revistas Veja Rio, Piauí e no jornal Folha de São Paulo. Apenas uma é inédita, a que fala sobre a morte de Fernando Torres.
Fernanda fala do ofício do ator e da arte cênica fazendo um apanhado da história do teatro, cinema e televisão em cujos palcos transitou desde cedo na vida.
Há pontos negativos. Fernanda carece da técnica do escritor profissional e transporta para o papel certos vícios de linguagem cuja origem se compreende quando se lembra de seu sucesso como comediante. O caricato, a superficialidade, a generalização que provocam o riso contaminam sua prosa. Ela abusa dos clichês e mostra sem aprofundar. Lembremos que os textos foram originalmente escritos para colunas de mídia impressa, espaço rígido em seu formato. Imperdoável é a falta de revisão da Companhia das letras que deixou escapar mistura de tratamentos, como nessa frase da página 123: "O humorista fará piada com sua desgraça, o escritor te roubará as histórias e o jornalista usará sua informação."
O texto Buquê nada acrescenta ao leitor e destoa do conjunto. Fala da histeria feminina e de sexo oral em uma conversa à mesa que pretende ser engraçada, porém, "entre o chocolate e a carícia íntima", "esqueçam os aspargos" e a crônica.
Perdoemos estes deslizes da escritora Fernanda, já que a atriz nos presenteia com um retrato precioso dos bastidores da arte e se dispõe a "falar, sem deixar de ser pessoal, sobre coisas de interesse comum."
O texto de abertura é Kuarup, no qual ela nos detalha à sua maneira engraçada os apuros da equipe de filmagem, isolada no Parque Nacional do Xingu, alojada em barracas baixas que obrigava as pessoas a viverem acocoradas, observadas por famílias indígenas, tendo o material de cena que pernoitara ao relento devorado por formigas. A autora confessa ter perdido seus "delírios de moça fina" e desenvolvido um certo "ceticismo em relação à vida selvagem".
Comparando diretores, roteiristas, passeando entre grupos e tendências, Fernanda cita a mãe para diferenciar trama e drama. A trama é técnica fria, o sofrimento egoico que o psiquiatra cura. O drama é apanágio dos mestres, é a transcendência da alma, toca fundo o espectador.
Achei curiosa a revelação de Bráulio Mantovani: "quando disseram que meus personagens americanos eram estereotipados, eu não tinha a menor ideia do que fazer para humaniza-los."
Quando o assunto é política, no entanto, Fernanda vacila; usa tantas figuras de linguagem que acaba por dizer coisa nenhuma. Melhor calar, como fez a mãe ao ser convidada para entrar na política, como Ministra da Cultura. No entanto, ela é comentarista política...fica sempre em cima do muro.
No capítulo Os Russos há interessantes considerações sobre o uso da literatura como solução para o ensino da política. A autora justifica: "os personagens debatem, discutem, evita-se a doutrinação sem contexto, permite-se a retrospectiva histórica da reflexão; usa-se a contradição humana como narrador". Ao término, o texto, que mantinha o seriedade do tema, desagua na desastrosa última frase: "a arte é uma baita aliada da educação". Em minha opinião, a palavra baita descontrói o texto.
Minha crônica preferida foi No dorso instável de um tigre, sobre o ofício de ator:
"O deus do teatro é Dionísio, o doido, o catártico, o de vinho, o do êxtase. É preciso livrar-se de Narciso. Os iniciantes vivem por definição em estado de pânico. A angústia em cena é o motor do comediante; controlá-la é a arte do profissional". Segundo Fernanda, teatro é fingimento mútuo. "Eu finjo ser outro e você finge que acredita". A fobia do ator é o medo da cena. Se cavalo e entidade se misturarem no palco, é o colapso, o risco de perder o sentido da profissão. "Que razão há para fingir ser outro?". Há uma linha bem tênue separando personagem, alucinação programada e loucura. "O bom ator não representa, é." O final deste texto é perfeito: "Tudo se primeira fala da primeira cena de Hamlet: Quem está aí?"
O maior elogio que posso fazer ao livro é: Fernanda escreve com a alma. artigo publicado no site


O charmoso quadrado japonês - artigo cultural

            Seguindo a trilha das cerejeira, no mês passado, em um vilarejo chamado Shiragawago, encontrei pela primeira vez o simpático Furoshiki. (pronuncia-se furoshikí)
           Foi minha amiga Helena, sansei, que exclamou:
           - Ah! Um furoshiki! Como o de vovó!
           Trata-se de um quadrado de pano, no qual as pessoas embrulham tudo: presentes, caixas, garrafas, livros, panelas com comidas quentes. Nós artísticos fazem a diferença nos pacotes, que podem ser carregados como cantil, bolsa de mão ou a tiracolo, ou viram flores enfeitando um mimo. Os presentes são embrulhados em seda. Para uso familiar, qualquer tecido serve. Os japoneses capricham em tecidos elaborados com padrões adequados para cada estação do ano. Na primavera, por exemplo, flores e filhotes de animais são os preferidos.

         O furoshiki teve origem no período Nara (710 - 784 d.C.) para transportar os bens do Imperador. Depois, no período Heian (794 - 1185) a nobreza utilizou amplamente esse recurso para acondicionar roupas. Nas casas de banho, esse era um modo prático de separar os pertences de cada um. (Lembrando que os japoneses gostam das saunas coletivas.)
               No século vinte o uso do furoshiki diminuiu por conta da popularidade dos plásticos e embalagens artificiais. Contudo, em 2006, o Ministro japonês do Meio Ambiente, Yuriko Koike, lançou uma campanha para promover o uso do origami de pano, outro apelido do furoshiki. O motivo é simples - seu uso é ecológico, evita o despercídio de sacolinhas plásticas.
              Comprei a idéia e repasso. Qualquer toalha de mesa, guardanapo ou pedacinho estampado de chita, até mesmo uma canga de praia pode ser facilmente transformada em bolsa ou embrulhar um presente de forma especial.
           Fica o convite ao leitor para que conheça as formas, da mais simples até a mais elegante, de amarrar o furoshiki há vários vídeos a respeito no youtube.





Receita de felicidade - Resenha de de uma obra de Epicuro

"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito." Assim começa a Carta sobre a felicidade, delicioso e precioso livreto de cinquenta páginas do filósofo grego Epicuro. Livreto porque tem dez por quatorze em e metade das páginas estão em grego, nas edição da editora UNESP.
Afirma o autor ser necessário "cuidar das coisas que trazem felicidade, já que, estando ela presente, tudo temos."
Bem humorado, esclarece o filósofo que "o mais terrível dos males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos"!
A carta esclarece que o prazer é ausência de sofrimento físico e de perturbações da alma. "Por prazer não nos referimos aos prazeres intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos". É realçado o fato de que "não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade".
Como outros filósofos gregos, também afirma Epicuro que o homem feliz é o sábio, que discerne o bem supremo nas coisas simples e fáceis de obter. E aconselha o leitor a meditar, dia e noite, para "viver como um deus entre os homens".
No Jardim de Epicuro, em Atenas, vicejava a comunidade onde o mestre com seus discípulos vivia de modo simples, tomando água e alimentando-se de pão e das hortaliças que cultivavam.
O epicurismo sobreviveu por sete séculos e encontrou entre seus ilustres discípulos os virtuosos romanos Sêneca e Cícero.
Recomendo ao leitor a leitura desta carta já que "ninguém é demasiado jovem nem demasiado velho para alcançar a saúde do espírito".

A arte de não ler - Resenha do livro de Schopenhauer (A arte de escrever)

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Engana-se quem pensa que os filósofos são sérios, tediosos, enfadonhos. Pelo contrário! Em alguns textos, como este de Schopenhauer, eles são engraçados, bem humorados e usam ironia fina para criticar os costumes.
Schopenhauer constata que em todos os tempos, a maioria das pessoas "lê, sempre, em vez dos melhores, a última novidade". Por isso, diz ele, "é tão importante a arte de não ler"!, constatando que "quem escreve para os tolos sempre encontra um grande público" e que "todo autor se torna um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro".
O filósofo aconselha ao leitor que "é melhor comprar livros de segunda mão do que ler livros de segunda mão". (aqueles livros em que alguém diz sua opinião sobre o que ele acha que o autor quis dizer. Às vezes, até o próprio autor se surpreende... dos achismos do sujeito)
"Na república dos eruditos, cada um procura promover a si próprio para conquistar algum reconhecimento". Schopenhauer diferencia eruditos de pensadores. "Os eruditos são aqueles que leram coisas nos livros, mas os pensadores são aqueles que leram diretamente no livro do mundo".
"Usar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos é sempre sinal inconfundível de mediocridade". Infelizmente, quem grita mais alto consegue seus cinco minutos de fama...
O autor ainda faz alguns comentários com seriedade. A respeito da poesia, por exemplo, afirma que poemas não podem ser traduzidos, apenas recriados. Também comenta que "a lei da simplicidade e da ingenuidade, já que essas qualidades combinam o que há de mais sublime, vale para todas as belas artes".
Todo grande leitor e cada aspirante a escritor aprenderá algo útil nesta obra não tão conhecida deste filósofo, A arte de escrever , e certamente passará algumas horas agradáveis na companhia deste livro interessante, ao qual não se aplica, a meu ver, a utilíssima "arte de não ler". publicado no site Digestivo Cultural em 10/7/2015

artigo - 18 de julho, Dia do Trovador



A alegria, o companheirismo, a firme determinação de seguir a vida pelo lado mais ensolarado, otimismo e solidariedade. Eis o trovador típico. Quem conhecer o grupo, logo perceberá a diferença.
De acordo com Jorge Amado, a trova é "a criação literária que fala mais diretamente ao coração do povo".
Vinda de Portugal, onde é conhecida como quadra, esta forma poética tem quatro versos de sete sílabas com sentido completo e divide-se em três gêneros: lírica, filosófica e humorística.
A UBT (União Brasileira de Trovadores) foi fundada por Gilson de Castro, cujo pseudônimo era Luiz Otávio, que faleceu em 1977. A data de seu nascimento foi escolhida para homenagear os trovadores.
Citarei algumas trovas para o leitor poder apreciar sua evolução através dos tempos.

Portugal

Sem conta, peso ou medida
vivo no mundo, de sorte
que não sei, chegando a morte,
que contas darei da vida.
Nuno Marques Pereira (século XVII)

Tu és Maria da Graça.
mas a que graça é que vem
ser essa graça a desgraça
de quem a graça não tem?
Fernando Pessoa (1888-1935)

Brasil

As nuvens ajoelhadas,
nos claustros ermos e vãos,
passam as contas douradas
das estrelas pelas mãos.
Castro Alves ((1847-1871)

O amor que a teu lado levas
a que lugar te conduz,
que entras coberto de trevas
e sais coberto de luz?
Olavo Bilac(1865 -1918)

Atirei um limão doce
na janela de meu bem.
Quando as mulheres não amam,
que sono as mulheres têm!
Manuel Bandeira(1886-1968)

Teu sorriso é um jardineiro,
meu coração um jardim,
saudade, um imenso canteiro
que trago dentro de mim.
Mário de Andrade. (1893 - 1954)

Em barco de nuvens sigo
e o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.
Cecília Meireles. (1901-1964)

Só por descuido é que Helena
acabou por se casar,
pois pensou que Cibalena
fosse pílula...Que azar!
Cláudio de Cápua

Era uma vez... e eu sorria
aos contos da Fada Bela...
e minha mãe não dizia
que a bela fada era ela!
Carolina Ramos

A data é comemorada pelo Brasil afora com várias festividades. Em Santos, por exemplo, Carolina Ramos proferirá uma palestra no dia 25 de julho na Biblioteca Mário Faria, às 18 horas, aberta ao público. Quem for da região, pode passar por lá e conferir.

Conheça mais em Trovadores de Santos . publicado no site Digestivo Cultural em 18/7/2015

arutigo cultural - Do outro lado do mundo (Japão)



Japão é mais do que eletrônicos, sashimi, amuletos shintoístas e templos budistas. Não vi por lá mangás nem animês nem haikus. Em compensação andei no piso rouxinol em um dos palácios do shogun Togugawa!
Viajei no mês passado com uma dezena de sanseis, esses "apátridas" que no Brasil são japoneses e que no Japão são brasileiros.

No segundo dia eu estava indo ao ofurô coletivo com a naturalidade de quem via à praia; no terceiro dia comer arroz com nabo no café da manhã parecia o correto. No terceiro dia eu estava comendo peixe cru e afirmando ser oishi (gostoso).

Seguindo a trilha das cerejeiras , descobri o furoshiki, , uma espécie de origami de pano usado nos tecidos mais elaborados e com nós artísticos para finalidades diversas: embrulhar presentes, carregar comida quente, garrafas usadas como cantil e até como bolsa.
Como não admirar um povo que de arroz, chá verde e flores faz de tudo, de papel e doces?

O paladar ocidental se choca com a culinária japonesa. Ao fim de uma semana eu olhava disfarçadamente a procurar um pão de queijo...mas acabei por notar a diferença no corpo - mais disposição, melhor digestão, um sentido de plenitude e bem-estar. Essa dieta exótica não me fez correr ao supermercado em busca de ingredientes nem procurar por receitas no Google, mas me inspirou a caminhar, meditar e apreciar a beleza singular das montanhas cercadas pelo mar bravio.
O comentário mais engraçado ficou por conta de nossa guia. Ela nos contou dos japoneses centenários e do baixo índice de natalidade, menos de dois filhos por casal. No Japão tudo é de excelente qualidade e caro; o custo de criar um filho deve assustar. Aí a guia arremata o assunto:

- Japonês não morre mas também não nasce, né?

Para ser melhor, só mesmo com placas, mapas e folders em outras línguas. Eu não entendia o sotaque monossilábico do inglês deles, e meu acento francês não me ajudou a ser entendida por eles, porém japoneses são ótimos em mímica! Por gestos, cruzei duas ilhas conseguindo me entender com os comerciantes. Vou sugerir à ONU que engavete de vez o esperanto. Na minha opinião, a linguagem universal que poderá unir nossa Babel será a linguagem libra de sinais.
Uma advertência final: não acredite em quem lhe disser que poderá ver o monte Fuji de qualquer lugar de Tóquio e perfeitamente do alto do mirante Skytree. Mentira! Fuji-san, como é carinhosamente chamado, escondeu-se na poluição que circunda a capital. Virou monte Fugiu...
Os japoneses são na deles, eu sou na minha, por isso senti-me tão bem por lá. Pretendo voltar. O outono me aguarda... Dewa mata...

publicado no site Digestivo Cultural em 17/7/2015

artigo - O sonho de um árabe (Dubai)



Seu povo morava em tendas, andava de camelos e ele acordou milionário.
Em 1971, Sheik Zayed bin Sultan Al - Nahyan, muçulmano piedoso, primeiro presidente dos Emirados Árabes Unidos , desejou que Saint- Exupéry estivesse vivo para reescrever o capítulo de Terra dos Homens em que um árabe, olhando uma fonte perene, pergunta "porque o deus dos franceses ama mais os franceses do que o deus dos árabes ama os árabes".

Fiquei imaginando este árabe sonhando:

"- Como se vê - comentou o arcanjo Gabriel, servindo-se de uma tâmara - a riqueza sempre esteve embaixo de seus pés o tempo todo.
- Com esta riqueza vou comprar mais do que água - riu Zayed, feliz - Vou comprar os serviços dos maiores especialistas do mundo. Construir prédios com ar condicionado para o povo. Abrir escolas. Até o filho do mais humilde tratador de camelos desta terra receberá instrução. Vou abrir as portas do mundo árabe para os estrangeiros. Será bom para outros países, também. Muitos desempregados ficarão felizes em limpar nossas ruas e esfregar nossas vidraças. Os árabes todos serão patrões.
Gabriel engasgou-se com sua tâmara. Sheik Zayed apressou-se em oferecer-lhe outra xícara de café com cardamomo.
- Aquele outro profeta, Jesus, disse que "quem não está contra mim...". Somos todos descendentes de Lucy, não é mesmo, arcanjo?
Gabriel riu.
- Zayed, você é sábio. Um visionário.
- Todos os povos podem viver pacificamente respeitando-se uns aos outros. Eu não quebrei nenhuma imagem de Buda e espero que eles não entrem em minha mesquita sem os trajes adequados.
- Que mesquita?
- A Grande Mesquita que vou construir, tão bela quanto o Taj Mahal.
- E como vai chamar a mesquita? - gaguejou Gabriel.
- A Grande Mesquita, simplesmente. Isso diz tudo, não?
"Ele é generoso sem ser vaidoso"- pensou Gabriel.
- Unidos seremos uma forte nação. Jogaremos os jogo das nações conforme as regras ocidentais. Nada temos a perder. São eles que precisam de nosso petróleo. Todos ganharemos com o que eles chamam de "progresso".
- Sheik, senti uma ponta de ironia em seu discurso. Como quando falou de Lucy, o fóssil que muitos antropólogos consideram ser o ancestral comum da humanidade.
- O progresso nunca esteve em coisas materiais, Paz e amor são tão valiosos hoje como nos tempos do profeta Mahommed. Allah seja louvado.
Distraído, o arcanjo Gabriel quase exclamou Shalom ao invés de Salam.
A hora da prece se aproximava. Sheik Zayed acordaria e Gabriel deixaria seu sono.
- Antes de partir, Gabriel, leve os meus agradecimentos a Allah e peça-lhe que ilumine meu entendimento para a realização do mais caro sonho de meu coração.
- A Grande Mesquita, sei.
- Não, Gabriel! Meu grande sonho é transformar o deserto em um jardim. Se tirarmos o sal da água do mar e estendermos quilômetros de canos gotejando sobre o solo..."


O muezim chamava, o sheik acordou e Gabriel começou a preocupar-se com as consequências geradas no planeta pela dessalinização do mar - como isso afetaria o clima global, as correntes oceânicas, a fauna e a flora do golfo de Oman? Como se não bastasse a trapalhada que era ser intermediário do Altíssimo para três diferentes credos...

Os sonhos de Sheik Zayed hoje são realidade.
Mais do que um árabe a mais no deserto, Sheik Zayed foi um homem no planeta Terra, o lar comum de todos nós.
O grande feito do sheik, a meu ver, foi a capacidade de enxergar, para além do mundo árabe, o ser humano, merecedor de respeito, qualquer que seja sua fé, sua língua, seus costumes.


Resenha do conto - A segunda vida de Machado de Assis

Este conto instigante por sua própria temática, o é ainda mais por tratar-se de um palimpsesto.
No sentido literal, palimpsesto designa um pergaminho (ou papiro) cujo texto era raspado para permitir a reutilização, e através do qual se percebe o texto anterior. No sentido literário, é uma obra que remete a uma obra anterior. No atual estágio de nossa civilização é quase que inevitável que cada novo texto remeta a outro texto anterior. Palimpsesto é diferente da intertextualidade, pois nesta, se repetem literalmente as palavras do primeiro texto; já no palimpsesto, o que se repete é a ideia em si.

Este conto tem por trás de sua estrutura dois textos antigos: o mito de Er e a Voz do silêncio.
Para entender o conto, não é necessário conhecer os textos de base, mas este conhecimento enriquece o entendimento do conto. Por isso acrescentarei um resumo deles ao final, e o leitor poderá pesquisar mais profundamente por conta própria, pois são textos bem longos.

A segunda vida começa, de maneira bem atual, pelo meio: (era inovador, nosso Machado):

"Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:
- Dá licença? é só um instante.
Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:
- João, vai ali à estação de urbanos, fala da minha parte ao comandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dois homens, para livrar-me de um sujeito doido."

Aí já tem o leitor duas informações: a primeira é que há um personagem supostamente doido; a segunda é que o monsenhor chamou a polícia, e isto surpreende, pois seria mais lógico, sendo a maioria dos loucos, louco mansos, chamar um médico!
Também somos logo informados de que o clérigo estava assustado:

"Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que José Maria conservava atravessada sobre as pernas".

O autor passa a palavra ao personagem louco, enquanto deixa na sombra a história do pároco, secundária ou principal cabe ao leitor decidir ao final.
Vamos ao discurso do doido, aliás, José Maria:

"Como ia dizendo a Vossa Reverendíssima, morri no dia vinte de março de 1860, às cinco horas e quarenta e três minutos da manhã. Tinha então sessenta e oito anos de idade."

E aí o texto nos remete ao mito de Er, pois também ao personagem do conto foi imposta a volta, e teve ele a oportunidade de escolher, e escolheu voltar como alma experiente, que se lembrasse, pois aludia ao ditado "ah, quem me dera ter aos vinte anos a experi6encia da velhice!"
Vai daí ter o personagem uma infância e adolescência insípida, permeadas pelo medo de tudo - e Machado desenvolve aí a teoria de que a inexperi6encia da juventude dá a vida uma certa graça e prazer próprios da ignorância das consequências. De forma engraçada, o personagem afirma recusar o amor, pois infalivelmente fracassa, ou por que alguém morre, ou por se desentenderem, ou por terem muitos filhos e passarem necessidades ou por não terem filho nenhum e se sentirem frustrados etc...O fato é que o instinto é mais forte, e o personagem casa.
Seguem-se várias reflexões e peripécias, até chegarmos ao trecho que nos remete ao segundo texto:

"Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus fala dos lírios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-mos. ..Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina... Não lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sair de dentro um réptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flores".

Ao acordar, refere o moço,
" viu a mulher diante dele aflita e desgrenhada. Os olhos de Clemência eram doces, mas ele disse-lhe que os olhos doces também fazem mal."

Chega-se aqui ao clímax e ao fim do conto, para surpresa e esclarecimento do leitor: "Neste ponto a fisionomia de José Maria estava tão transtornada que o padre, também de pé, começou a recuar, trêmulo e pálido.
"Não, miserável! não! tu não me fugirás!" bradava José Maria investindo para ele. Tinha os olhos esbugalhados, as têmporas latejantes; o padre ia recuando... recuando... Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés."

Acredito que aqui, ao contrário do que ocorre em Dom Casmurro, importem menos os motivos do enciumado que as ações do suspeito...cabe ao leitor ler o conto na íntegra e decidir por si.

Anexos:
1 - O mito de Er - é narrado por Platão em A República
"Esta é a história de um guerreiro, morto na guerra, que levantou-se em sua pira e contou o que havia visto no outro mundo. Disseram-lhe que, como milésimo morto, ele deveria voltar à terra, não lhe sendo possível recusar o retorno. Dois juízes disseram-lhe que seria mensageiro entre os homens de tudo o que ali ocorria, e que prestasse atenção.
Algumas almas eram encaminhadas para reencarnar perante as moiras, deusas do destino. Após escolher como queriam renascer, eram levadas para a planície do Esquecimento. Eram advertidas: "Elegereis vós mesmas a vossa sorte, e permanecereis irrevogavelmente unidas; como a virtude não tem dono, cada uma a possuirá conforme a honre. A divindade é inocente".
O perigo era grande; necessitava-se de discrição e conhecimento para escolher bem.
- Mesmo para a última alma que escolher haverá boa fortuna se for sensata.
Pois após escolher, a alma confronta-se com as decorr6encias da própria escolha. A primeira alma precipitou-se e optou por ser tirano; seu destino incluía devorar os próprios filhos e ser linchado por uma centena de revoltosos. Já o famoso Ulisses, com a lembrança das fadigas passadas, escolheu renascer como um homem simples.
Er foi reenviado a seu próprio corpo, ergueu os olhos para o céu, viu que era madrugada e encontrou-se sobre sua pira, de onde desceu para contar aos outros homens o que presenciara.
Assim, sabedores do que ocorre após a morte, pode o homem salvar-se de dissabores futuros, escolhendo com sabedoria."

2 - A voz do silêncio - tradução por Helena Petrovna Blavatsky do texto tibetano "O Livro dos Preceitos de Ouro" , que relata de forma poética a evolução da alma humana.
"Na Sala da Aprendizagem, a tua Alma encontrará as flores da vida, mas debaixo de cada flor uma serpente enrolada. Se queres atravessar seguramente a segunda, não pares a aspirar o perfume das suas flores embriagantes.
O perigo desta parte da jornada da vida, é que a pessoa fique tão inebriada pelo perfume das flores que se recuse a continuar a jornada. Se fixar-se no prazer este mesmo prazer transformar-se-á em sofrimento."

fonte: A segunda vida publicado no site Digestivo Cultural em 4/8/2015

Porque as mulheres fazem artesanato? - artigo cultural

Simone de Beauvoir que me desculpe, eu discordo. Li seu livro aos 17 anos, hoje tenho 60 e falo com conhecimento de causa. Mulheres fazem artesanato porque é divertido, criativo, interessante e cada pequena peça cuidadosamente elaborada expressa vida.
Nos anos setenta, O segundo sexo tinha seu peso. Garotas intelectualizadas (como eu) torciam o nariz para tarefas domésticas e varavam as madrugadas sobre os livros, visando um futuro financeiramente e socialmente/ nte independente.
A verdade? Eu adorava cozinhar e pintar. Também admirava as lindas colchas de crochê feitas por vovó. A pouca habilidade de minhas mãos canhestras foi um fator determinante em minha decisão de debruçar-me sobre os grossos compêndios. Formei-me e por 35 anos empenhei-me em trabalhos enfadonhos sonhando em pilotar o fogão. Minha alegria era estar em casa a cuidar dos filhos. Pude trabalhar meio período por alguns anos a vivia pensando nos momentos passados em casa com a família.
Ao longo da vida, como muitas colegas, em intervalos dos plantões, dedicava-nos a pequenas tarefas manuais, usufruindo uma agradável sensação de relaxamento mesmo que o resultado final estivesse muito aquém dos mimos comprados prontos nas lojas. O resultado objetivo, a princípio um completo desastre, aprimorava-se com o tempo, gerando profunda satisfação. Aquele sapatinho, aquele paninho de prato, aquela touquinha, feitas com as próprias mãos, expressavam amor. Cada pecinha tecia a vida, acalmava a mente, trazia a atenção ao momento presente. Comecei a ver o artesanato como uma forma de meditação ativa, potente e eficiente, como descobre através dos anos.
Quantos depoimentos de mulheres que começavam a bordar do lado de fora da UTI (unidade de terapia intensiva), às portas do centro cirúrgico, nas salas de espera dos terapeutas, enquanto aguardavam notícias dos entes queridos? "Deu-me conforto espiritual". "Salvou-me da depressão". "Diminuiu meu desespero".
Velhice chegando, maridos morrendo, que os egoístas dos homens insistem em morrer antes, pais idosos com doenças degenerativas, o que salva centenas de mulheres da solidão e da tristeza? A arte e o artesanato, seu primo próximo e igualmente gratificante.
Não, Simone de Beauvoir, o artesanato não é necessariamente" a ocupação que mantém as mulheres ociosas em casa, preenchendo o vazio de suas vidas inúteis". Nem acredito que fosse assim para todas as mulheres dos séculos passados.
Ao aposentar-me, fiquei feliz em dedicar meu tempo a sanar a frustração da adolescência: aprendi a tricotar, a costurar e a fazer patchwork. Não o faço por sentir-me inútil. É simplesmente divertido. O patchwork é um quebra-cabeça de adultos. De quebra, relembro geometria, que eu teria aprendido com mais facilidade no ginásio confeccionando roupas do que me debatendo com a questão retórica "pra que diabos serve isso? ". É difícil. Desafiante. Criativo.
Sou, como sempre fui, uma pessoa muito ocupada, com múltiplos interesses. Ainda exerço a profissão, dois dias por semana. Frequento todos os grupos que sempre quis frequentar, onde se discute literatura, poesia, cinema e....artesanato também! Esses caminhos criativos nos conectam com as pessoas, expressam o nosso eu.
Simone, nem toda mulher nasceu para ser intelectual, e eu, que sou intelectual assumidíssima, tenho, sim, meu lado caseiro que me dá muita alegria.
Neste bom século XXI a mulher pode ter o melhor dos dois mundos.
Vamos, então, ser feliz. Simples assim.

Nu shu - consolo para os dias de arroz e sal - resenha de um livro de Lisa See



Esta é a sinopse do livro Flor de neve e o leque secreto, escrito por Lisa See.

O filme de mesmo nome é também interessante, inclusive por ampliar o assunto e abranger os dias atuais e as mulheres em seu aspecto contemporâneo, em uma história espelhada à principal.
Basicamente a personagem do livro está enredada nos aspectos Obediência cega versus Sinceridade. Esta é a história de todos os que são criados na ideologia do dever acima de tudo. Trava-se a batalha interior entre a verdadeira natureza que clama por expressar-se e a pessoa que supomos que devemos ser, para corresponder ao que a sociedade espera de nós. Os ciclos da vida são inexoráveis, mas não precisam ser impostos, para servir a interesses outros, alguns escusos, outros equivocados.
Existe alternativa, sim, ao papel social imposto, a maneira grega, ateniense, Paideia: descobrir quem somos e desenvolver o melhor de nós. Paideia deriva de paidos Não pule as notas de agradecimento da autora, pois são quase tão interessantes quanto a história, trata-se da pesquisa que ela desenvolveu pra escrever o livro. Vou resumir aqui.
Na China, as mulheres da provincia de Hunan, sudoeste, desenvolveram uma escrita secreta, que permaneceu oculta por mais de mil anos, através da qual elas escreviam poemas, histórias, cartas, e bordavam mensagens me pequenas peças de roupas que enviavam como presentes. Diz a lenda que a escrita nu shu foi criada por Yuxiu, linda moça letrada, filha do fazendeiro Hu, da aldeia de Jintian. O imperador Song Zhezong, ouvindo falar de sua beleza, levou-a para seu palácio, onde ela foi menosprezada pelas damas da corte e abandonada assim que o imperador cansou-se de sua beleza. Essa foi a maneira encontrada pela moça para manter contato com sua família.
Por razões metafísicas e práticas, grande parte dos escritos em nu shu foram queimados. A partir do século vinte, desaparecendo a necessidade de utilizar esta linguagem, ela ficou praticamente extinta.
Há, atualmente, um museu de nu shu e uma escola de nu shu em Puwei.
O esquema de rimas tradicionais utiliza o ritmo de rimas pentassílabo ou heptassílabo. Também na China, algumas meninas especiais podiam unir-se em alianças por toda a vida, alianças conhecidas como velhas iguais ou como união laotong. Elas deveriam ter certos traços em comum, por exemplo, nasciam no mesmo dia e ano, e mais outros seis atributos.
Nu shu é a única escrita conhecida que foi utilizada somente por mulheres.
Diferente dos ideogramas tracidionais, utilizava fonemas (mulher é sempre mais esperta, mesmo) Os pés amarrados eram chamados lírios dourados e dizia-se que eram uma preparação para as dores do parto (???) e comprovavam a capacidade da mulher de ser disciplinada. (E a coitada tinha outra opção?) Supõe-se que uma em cada dez meninas morriam no processo mas ninguém se importava porque meninas eram criaturas sem valor.
Há muitas coisas interessantes no livro, a par da linda história imaginada pela autora.

Por exemplo, a maneira poética de dividir o ciclo da vida das mulheres:
dias de filha
dias de cabelo preso (noivas)
dias de arroz e sal
dias de sentar calmamente

O ideograma chinês para amor materno, tengai, é formado por dois sinais: um siginfica amor e outro, dor.

Muito mais o leitor atento encontrará no livro, que o convidará a refletir sobre a amizade, a lealdade, as difíceis escolhas que a vida impõe nos momentos de crise.


Viajando pelas estátuas ao redor do mundo - artigo cultural





O mais charmoso cemitério da Europa, um lugar realmente romântico, li no meu guia turístico. Li e reli, surpresa. Afinal, é um cemitério, não? Romântico? Charmoso?



Bem, eu tinha de conferir, e assim, lá fui conhecer o Cemitério Laeken, em Bruxelas , onde descobri uma cópia do "Pensador" e fiquei sabendo que Rodin fez vinte cópias da mesma, uma das quais está lá, no Laeken, onde o ponto forte são as estátuas colocadas ao lado dos túmulos ou espalhadas pelos caminhos entre os mesmos. Algumas são realmente tocantes, como as criancinhas pequenas desamparadas, irmãozinhos de mãos dadas, o marido desolado, a moça prostrada sobre o túmulo do amado.
A partir daí passei a prestar mais atenção nas estátuas em minhas andanças pelo mundo , não nas históricas, convencionais, marcos de descobrimento ou homenagens a pessoas ilustres em poses solenes. Não me refiro a estas. Há outra sorte de estátuas.
As artísticas, em que escultores sensíveis retrataram momentos do cotidiano, o soldado que parte, a família que se despede, o migrante que chega, a ave que voa. Como o rapaz que parte, retratado pela desolação do casal de amantes no parque Van Dusen, em Vancouver, Canadá, obra do artista George Lundeen.





Karol Badyna é o escultor dessa estátua de Chopin, exposta no Jardim Botânico de Singapura. Tive de brincar com ela!
Johnson Seward nos contempla com duas gostosas brincadeiras em suas criações. Uma está no Queen Elizabeth Park, Vancouver, e já teve uma de suas pessoinhas roubadas por algum maluco, mas felizmente foi encontrada e levada de volta ao grupo. Claro que a gente não resiste a misturar-se em sua "Sessão de foto"



A outra estátua de autoria dele que me divertiu está à entrada do Stanley Park, Vancouver, e se chama "A busca"
Estava eu alugando minha bicicleta quando me deparo com ela e resolvo tirar uma foto a seu lado na volta do passeio. Devolvida a magrela, duas horas depois, corro ao banco e encontro lá, para meu desencanto, uma senhora sentada bem ao lado da estátua. Aproximei-me disposta a esperar que ela se fosse, e fui recepcionada com um sorriso e uma história:
- Coitada! Você sabe, há anos que ela está aí, a procurar, a procurar, e nunca encontra, sabe-se lá o que, não é mesmo? Talvez uma carta? Ou um batom? Eu bem que tenho ajudar, toda vez que venho aqui fico conversando com ela, coitadinha. Tenho pena, ela é tão solitária, e não irá para casa antes de encontrar, sabe-se lá o quê.
Quinze minutos de conversa semelhante e eu desisti. Não tive de coragem de pedir que a senhorinha se levantasse e me permitisse uma foto ao lado da estátua, pois talvez ela nem soubesse que se tratasse de uma estátua! Persisti, voltei no dia seguinte e tirei várias fotos.



Povos que cultuam uma estátua famosa fazem com elas brincadeiras, como é o caso do Manneken Pis, na Bélgica, que volta e meia recebe roupinhas engraçadas para ficar sempre atualizado. Visitei-o na época da Copa do Mundo, 2014. Encontrei espalhadas pela cidade várias réplicas divertidas, Olhem só o que fizeram:



Uma categoria especial de estátuas apreciadas pelos amantes da arte são as que retratam os mortos famosos em seus locais e poses preferidos, como é o caso do Pessoa sentado à mesa no Chiado, em Lisboa, em frente ao bar A brasileira; do nosso Drummond sentado em seu banco em Copacabana. Difícil é a gente entrar na fila e conseguir a tão desejada foto com o ídolo disputado pelas câmaras dos turistas!
Esta estátua em Lisboa lembra a tradição da terra:



Algumas campanhas ficam famosas à base de estátuas coloridas, como as vacas que passearam pelo mundo e enfeitaram por um tempo a Avenida Paulista, com objetivos controversos, incitando inclusive uma Cow Paródia em resposta á Cow Parade. Cito também os curiosos rinocerontes que invadiram Sydney , em uma campanha para defender os animais ameaçados de extinção, promovida pelo Taronga Zoo.

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Aliás, australianos adoram estátuas estranhas, que me convenceram de que os ingleses imigrantes eram pessoas profundamente criativas. Em Adelaide, encontrei esses porcos revirando o lixo.



Em Melbourne, tropecei neste curioso porta níqueis.



Agora, responda-me o leitor se puder: por que motivo está este garotinho plantando bananeira em uma das ruas mais movimentadas de Sydney?



Há sites com listas das estátuas mais divertidas e curiosas, que o leitor paciente pode garimpar pelo Google.

Um poeta e tres esposas - resenha de um livro de Lisa See

sinopse do livro Peônia apaixonada, de Lisa See



Baseado em uma ópera, sobre uma história antiga de fantasmas, o livro atualiza a saga de três esposasem um enredo original e romântico, Há uma referência histórica sobre o massacre de Yangzhou, em 1645, o momento de transição entre as dinastias Ming(chines) e Qing (manchú)
Como consequência da mudança de governo, os intelectuais chineses se retiraram do governo e se voltaram ao 'mundo interior', dedicando-se às artes, escrevendo poemas, pintando, patrocinando artistas em suas terras, afastando do governo para não auxiliarem a prosperidade dos invasores. Para a personagem do livro, isso siginificou a presença do pai em sua educação: ele a sentava no colo e lia os clássicos para ela; desta forma, ao contrário da maioria das mulheres, Peônia é instruída, e desenvolve sua inteligência e sensibilidade.
A mãe da jovem, como ela descobrirá mais tarde, no decorrer da história, foi uma das muitas mulheres da elite que, 'na desordem social que se seguiu ao Cataclisma, quando a dinastia Ming caiu e os manchús se apoderaram do poder, aproveitaram o momento para deixar suas casas e viajar pelos rios navegáveis em botes aprazíveis, escrevendo sobre o que viram e publicando suas observações.
Nessa época, muitas mulheres do delta de Yangzi deram uma nova interpretação às Quatro Virtudes. No entanto, ao criar as filha, a mãe de Peônia severamente a alertava para o significado e intenção originais (virtude, compostura, modéstia e trabalho)'

As Quatro Virtudes :
Chin - sabedoria
Yung - coragem
Jen — benevolência
Li - padrão de conduta exemplar

O livro é interessante sobre diversos aspectos: aborda a anorexia nervosa sob o ponto de vista de distúrbio amoroso; mergulha no aposento das mulheres, encara as consequências funestas da guerra, analisa os costumes antigos, apresentando-nos tanto a sabedoria quanto as superstições desse povo antigo; e disseca o relacionamento amoroso, transcendendo o desejo indo ao âmago do sentimento.

Leitura cativante e encantadora.

Os vestígios do dia - resenha do livro Os resquícios do dia, de Kazuo Hishiguro

Sinopse do livro de Kazuo Ishiguro — The remains of the day

Tema de um filme igualmente brilhante , estrelado por Anthony Hopkins e Emma Thopson.

Introspectivo. Denso. O primeiro capítulo é difícil de ler, há muitos nomes nele,depois a depois a leitura deslancha. O estilo do autor é agradável.
Um mordomo, com seu código de honra, seu senso de lealdade, de dignidade, é algo que só pôde existir na Inglaterra.
Mr. Stevens, filho de mordomo, é obcecado pela questão: o que é ser um grande mordomo? O que é esta grandeza, de que se fala na Inglaterra, até mesmo no nome do país, a 'Grande' Bretanha? Dedicando a sua vida ao cumprimento do dever, Mr. Stevens certamente deixou passar oportunidades de amor, amizade, e mesmo, até, de tomar partido em assuntos morais de grande impacto.
Pode-se perguntar se o personagem carece de inteligência ou é apenas vítima de intensa programação, diria até adestramento, para não ver, não ouvir e não falar. Sua humanidade beira os limites da robótica.
O pano de fundo é a segunda guerra mundial.
O contraponto ao protagonista é a governanta Sally Kenton, emotiva, eficiente e inexplicavelmente, apaixonada por Mr. Stevens.Como este não lhe retribui o afeto, ela deixa o emprego e casa-se com outro homem.
Já velho, o mordomo passa alguns dias passeando pelo país e rememorando os grandes momentos de sua vida: a morte do pai, o convívio com Miss Kenton, que o admira, ainda, e ao encontro da qual está indo nessa viagem; ocasiões em que 'grandes eventos mundiais'foram afetados pelas pessoas que se reuniram em Darlington House, a mansão onde trabalha - porém Mr. Stevens permaneceu o perfeito mordomo: surdo, mudo, calado.
Ao fim da viagem, um desconhecido lhe diz, ao por do sol: (e ele, curiosamente, afirma, que, claramente, o sentido da frase é metafórico!):

`The afternoon is the lightineng part of the day'
(a tarde é a parte mais brilhabte do dia)

Bem, Mr. Stevens, o que lhe restou ao fim de seu 'metafórico' dia?
Terá o senhor o mesmo destino inglório, a mesma morte solitária de seu pai?
(curiosamente, ele nem cita a mãe)
Ao lado da ex governanta, em pé na estação de trem, o mordomo parece enfim compreender...deixo ao leitor, como o faz Ishiguro, as conclusões.

A vida real é mais fascinante do que a ficção - resenha do livro A bibliotecária de Auzchwitz

Sinopse do livro A bibliotecária de Asuchwitz - Antonio G. Iturbe

A vitória é dos que persistem na boa luta.
Há muitos fatos interessantes neste livro, como as pessoas livro — pessoas que memorizavam um livro e todos os dias contavam e recontavam a mesma história, para que o texto não se perdesse. E o recurso ousado utilizado por um alemão para retirar um judeu do campo, levando em sua mochila um uniforme extra e saindo os dois uniformizados, o judeu junto com ele. em seu horário normal de deixar o posto, bem à vista dos sentinelas habituais, que nem deram pelo estratagema.
Por que as histórias de campos de concentração nos fascinam tanto? Eu, pelo menos, fico grudada ao livro e não consigo largar, por piores que sejam as situações ali descritas, torcendo pelos personagens do bem.
E me dou conta de que, para mim, pelo menos para mim, os campos de concentração são uma metáfora de minha realidade, na qual estou presa contra minha escolha. E os nazistas são todas as pessoas más que destroem este planeta que tem tudo para ser um paraíso, os corruptos, os gananciosos, os criminosos, os maus profissionais e políticos corruptos, que se apropriam do uqe deveria ser o bem comum. Se acreditarmos na mídia, parece que os maus-caracteres estão com a bola da vez.
Sim, "este é um mundo horrível", como disse Saramago, e é consolador ler um livro histórico e verificar que a vitória está com os que resistem, com os que conseguem rir apesar de todo absurdo, focar na beleza apesar de toda crueldade, e recusar-se a odiar, pois, como diz um dos personagens do livro, o professor Morgenstern, se nos permitirmos odiar, "eles" terão vencido a guerra, ao nos transformar em um ser moralmente deformado. Manter a sanidade mental e com ela a alegria, em meio ao horror, eis o desafio.
Baseado na vida real de Edita Polachova e seu incrível mentor Fredy Hirsch, que acreditava que alimentar as almas era prioritário, e conseguiu manter o espírito vivo de crianças, jovens e idosos durante anos, em Auschwitz, com o uso de livros vivos (aquelas pessoas de boa memória que decoravam livros), quadros-negros imaginários e uma biblioteca secreta, arriscando a própria vida para organizar uma escola no campo, alimentando a esperança: um dia, quando sairmos daqui, precisamos estar preparados para reconstruir o mundo lá fora.
Atualmente não existe uma guerra tradicional, ela está mascarada: o esmagamento econômico, a hegemonia da mídia, todo um paradigma contra o qual nos defrontamos todos os dias, e que traz, para os mais ecológicos e menos materialistas, a sensação de maldade e sufoco.
Quanta coisa boa acontece e é tão dificilmente alardeada? Quanta tentativa de rebelião ao status quo é cerceada nos bastidores? Os movimentos em prol de justiça e contra corrupção em nosso país são um exemplo recente. (Alguém acredita que não existe censura no Facebook e em outras mídias sociais? Nos e-mails das intranets nas grandes corporações? Manipulação do meio jornalístico?) E um boicote ao trabalho de formiguinha dos milhares de simpatizantes da paz, em grupos de yoga, religiosos, grupos variados de apoio psicológico a todo tipo de problema?
Ao colocar-me no lugar da personagem, percebo que é assim que me sinto: um dia, quando toda essa maluquice que está aí passar, e a vida normal retornar ao planeta — porque esta insanidade destruidora simplesmente terá de parar - precisamos estar preparados para reconstruir a Terra, que o materialismo coloca em risco.
a vida re